Os livros de 2019

  • O homem que via passar comboios- George Simeon
  • Flores- Afonso Cruz
  • A cena interior- Marcel Cohen
  • Portugal- Miguel Torga
  • Uma história de amor e trevas- Amos Oz
  • Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto- Mário de Carvalho
  • Chá e amor- Kawabata
  • O amor dos homens avulsos- Victor Heringer (Releitura)
  • Já então a raposa era o caçador- Herta Muller
  • Terra de neve- Kawabata
  • Ensaio sobre a cegueira- Saramago
  • Se esta rua falasse- J. Baldwin
  • Matadouro 5- Kurt Vonnegut
  • Se numa noite de inverno um viajante- Italo Calvino
  • O jogo das contas de vidro- Herman Hesse
  • Uma abelha na chuva- Carlos de Oliveira
  • Finisterra- Carlos de Oliveira
  • The beauty of the husband- Anne Carson
  • M train- Patti Smith
  • Gente de Dublin- James Joyce
  • Emily L.- Marguerite Duras
  • O senhor Teste- Paul Valery
  • Tribunal de quinta-feira- Michel Laub
  • A coisa mais próxima da vida- James Wood
  • Uma conjura de saltimbancos- Albert Cossery
  • O processo- Kafka
  • Inverno- Ali Smith
  • Monsieur Pain- Bolaño
  • Morte nas nuvens- Agatha Christie
  • Némesis-Agatha Christie
  • Um crime no expresso do oriente- Agatha Christie
  • Um punhado de centeio- Agatha Christie
  • O peso do pássaro morto- Aline Bei
  • Alguns humanos- Gustavo Pacheco
  • Doutor Glas- Hjalmar Söderberg
  • História da eternidade- José Luis Borges
  • O ano da morte de Ricardo Reis- Saramago
  • La hija del caníbal- Rosa Montero
  • A morte e o Meteoro- Joca Reiners Terron
  • O velho e o mar- Hemingway
  • Clube dos jardineiros de fumaça- Carol Bensimon
  • La literatura Nazi en America- Bolaño
  • Admirável mundo novo- Huxley (Releitura)
  • As virgens suicidas- Jeffrey Eugenides

Livros que não consegui terminar, porque não quadrou ou não gostei tanto:

O livro de peixes de William Gould- Richard Flanagan

Oblomov – Iván Goncharov

Parece que não foram tantos, porque este ano li, e reli, e reli, inúmeras vezes o meu.

Gosto que o ano começou com um clássico policial, passou pelo Monsieur Pain e no meio do ano de novo com a Agatha. Que teve dois Saramagos. Que reli o amor dos homens avulsos. Que se comparar com 2018 já percebo uns favoritos.

Teapot

Mesmo por cima da minha cabeça há madeira, mas no centro da sala o tecto é feito de vidro. Um vidro embaciado, não de condensação mas de tempo, esse embaciar leitoso que alguns chamam pó. O pó no entanto não tem essa claridade, é escuro, prateado quando o sol o invade, ou negro quando temos menos luz por perto. No meio do vidro pequenas raspas de alumínio fazem um desenho, uma espécie de quadrados e rectângulos alternados que fazem lembrar as palavras escritas à máquina.

Cada tanto passa um avião.

Então o tecto recebe uma sombra, um gesto de encharpe trazida para os ombros, e teimosa, cai de novo.

Ninguém levanta o olhar. Os olhos nos livros, nos jornais, nos computadores, ou na janela que do meu lado direito mostra uma relva selvagem, verde e amarela, cheia daqueles florzinhas que quando somos crianças arrancamos ao chão para sugar a seiva amarga.

Ultimamente tenho tido vontade se morder essas flores, sentir esse fresco que magoa os maxilares e os faz encolherem-se de azedo. Mas não sou imune à toxoplasmose, e isso agora, é mais importante.

Na parede para a qual todos estamos dispostos a olhar há uma tapete. De Arraiolos talvez. Homens que são músicos, um frade em destaque e e quatro na sua retaguarda. Um homem folheia um livro enorme, que colocado à direita não parece ser tão importante como o frade.

Três homens mostram folhas escritas e um deles foi arrancando as folhas como num caminho, as folhas estão no chão e ele está de joelhos, apoia outro enorme livro sobre a sua coxa e esse, eu acho, tem algo de verdadeiro a dizer.

O que ele tem a dizer é uma leitura. Algo ele viu no livro e quer contar ao homem em destaque, apesar de que pela sua cor, azul tão claro, só para quem muito olha sobressai. O homem talvez seja um rei, um presidente, faz um gesto com a mão. Não quer saber de nada. Fala agora. Outro agora. Sim. Não.

O vento sopra devagar pelos cantos inferiores do tapete, e ondula as folhas que estão no chão. Elas encaracolam-se como as verdades por revelar. O homem que tem o joelho em esforço sente um formigueiro nas pernas, e pensa que a sua mãe lhe diz que quando isso acontece, deve comer bananas. Baixa os olhos para as verdades que se fecham, o chão geométrico, os pé dos outros homens que mostram as outras folhas.

Pensa qual será a maior mentira do mundo.

quem falta?

À entrada já se vê a janela, e da janela a entrada. A metade é elétrica e as caudas de plantas. Triangulares arestas aqui e ali. Na altura da minha cabeça uma faixa de frutas: laranja, uva, pêra. Magra, a faixa é animada e dá frescura. Espátulas e facas pendem da parede e uma rã vermelha, de fazer chá, salta desta estante para aquela. Tem caixa de batata e banana, planta de alecrim. Uma de verdade e outra plastificada. Nunca falta detergente para nada e cheira a lavanda e líchias. É branca e azul. A bancada de pedra escura, tem brilhantes que saltitam vibrantes na bayette de cif mil superfícies.

Pêssego

Na ponta do pêssego uma mancha.

A pele rugosa, como fato de treino, pele de pêssego diziamos. Mas não sei se é o nome oficial.

O pêssego arrepanha-me. Os pelos. Pêlos, diziamos antes, quando esses fatos de treino estavam na moda. Reebok. O adidas. Agora é tudo nike e algodão. Não me arrepanha os pêlos. Talvez a sensação, esse eriçar, venha do acento.

Pêssego!

Pêssego.

Escreve-se assim?

Três também leva, e não arrepanha.

Depois só unhas em quadros de giz. E a farinha seca, muito seca.

Mas enfim, uma mancha. Seria uma mosquita? Um mosquito? Uma formiga?

Dizem que aqui viveu um embaixador, ou um consul, cônsul, com acento, e que na mala trouxe as formigas. Todos temos, aqui no prédio, magras, castanhas, não gostam de açúcar. Vivem em caixas de papel, não havendo caixas, basta sacos de papel, mas grossos, nada desses fininhos reciclados onde se guarda a fruta. Fazem o ninho.

Há venenos, pegam na bolinha do veneno, levam para o ninho e acabou-se a vida de cartolina. Dá-me pena. Dizimar.

Talvez me tenha habituado, a esta companhia silenciosa, ordenada e previsível. Sensatas não fazem ninho nos livros, nos cadernos. Há respeito.

Talvez quando as veja pense nesse embaixador, nesse cônsul, e esse exotismo me dê pele de pêssego.

Ou então é so preguiça.

Prêguiça.

i slapped 10, 000 dollars to kill time.

No facebook da Inês tinha uma tabela. Números e letras e datas. Quando juntas números, letras e datas, misturas os elementos sempre no mesmo sentido. O do relógio ou o inverso. Escolhe. O que encontras é a aparência de uma verdade antiga.

Um “hieroglyph”.

No caso, porque estava em inglês.

Quando as depuras, numa paneira, o que encontras é uma criança de cinco anos.

Se os grumos surgem e bates com a um, dois, três, o que tens é uma ciência.

Sendo que no caso, eu sou meio impaciente, e comi a receita crua, o que tenho é a frase:

Não aconteceu mas podia ter acontecido.

Eu podia ter slappeado 10, 000 dollars to matar time.

O lápis estava afiado, o desenho era da historia da carochinha. A carochinha, como era mesmo? Sopa. Não, feijoada. Um rato, uma moeda. Afiou o lápis de novo.

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