digressões

Os dois gatos, um branco e outro preto, estendidos ao sol, as portadas azuis abertas e os vizinhos chineses descarregando o camião branco com letras vermelhas, que eu não sabia o que significavam e pensei em copiar e perguntar depois, mas não tinha nada em que escrever, nem caneta, nem lápis, só uma afiadeira na carteira, guardava sempre alguma por lá, no bolso pequeno, uma afiadeira e as chaves, a da casa nova e a desta que ainda tinha porta-chaves: um quarto amarelo e uma cama azul, o quarto do Van Gogh que seria um bom nome para o gato preto que tinha uma orelha ratada, comida por um picotado qualquer, mas que acabara por se chamar Fifico porque era o nome que o meu filho gostava, Fifico, e a outra Fofuca, o gato preto, o gato branco, uma família de cinco, nove orelhas normais e uma a meias.

 

A rua caía para a direita, cheia de paralelipípedos desfocando, desfocando, e o centro da imagem escorria pelo ralo grosso da sarjeta oxidada, a mão fria, o calo magoado de segurar o lápis que transcrevia as linhas torcidas do edifício arte nova, subiu mansa até à orelha, furou o cabelo húmido e teso, preso num elástico tão forte que fazia a cabeça doer um pouco, os dedos procuraram a haste e o sangue voltou às pontas cansadas, às unhas moles, às peles rebeldes de manicure, a haste estava ali, hesitante, entre o rosto, o cabelo, a orelha e os dedos empurraram a rua de volta, para fora da sarjeta procurando os postos de luz que em breve se acenderia, ao céu escuro carregado de urgências de chuva e os paralelípipedos ficaram claros, recortados e perfeitos de arestas, e pude voltar a desenhar.

Bestiário express

O cão a barata a angústia,

mordiam a mosca, a borboleta, o caracol.

No fundo da lagoa três peixes falavam sobre o absurdo,

o lodo mais puro sabe a sal.

O rato, a cobra, a traça

rezavam canções de encantar:

a asa, a casa, e o terminar.

A um canto ela cerzia duas meias sobre o alguidar.

meias

Não me levantei descalça.  Tinha as meias. As noites de lençol e meia. Enquanto eu dormia, sem frio, sem calor, ardia a minha esperança nas borboletas brancas.

Obedeço só a crendices com poesia: borboletas brancas pairando à minha volta? Sorte, boa notícia. Gato preto caminhando na esquina? Se formos para o mesmo lado é boa sorte!

Dentes de leão raros, um por relva? Desejos por concretizar.

Pode ser, pode ser sim, que algumas dessas crendices as tenha inventado eu. Pela poesia. Não, pela beleza. Ou pela ternura, a mesma que um bom par de meias dá a um pé de fim de verão.

Não me levantei descalça. Tinha as meias. A segunda volta. Os memes, os photoshops, os gritos, os hashitaguis, as rezas, as esperanças.

Há-de-dar-sim.

Para continuar vivendo.

Há-de-dar-sim para acreditar um pouco numa outra crendice minha.

Inventei eu também. Olhe para uma pessoa, qualquer. Cruzou na rua, no metro, viu pela janela. Suponha humanidade. Estabeleça contacto visual e aguarde.

Seria essa a ideia das borboletas?

Rodopie buscando o olhar. Se alguém olhar no seu olho, dentro do cristal húmido, que é o mesmo que estava lá antes, na barriga de sua mãe, crescendo com as unhas, os ossos, o cérebro.

O olho, que já estava lá, na barriga da sua mãe.

O mesmo que alguma mão caridosa puxará para baixo quando chegar o fim de olhar.

A pessoa poderá, ainda assim, defender a tortura, a inferioridade de uns em relação aos outros?

Pode, dirão vocês. Já todos sabemos que pode. Sabemos bem demais.

Enquanto aguarda, vista as meias.

Mesmo que seja início de verão.

Mesmo que esteja num lugar quente.

Pelo sim pelo não vista as meias.

Se puder escreva nelas.

Algo inspirador.

Se o outro olho, fugir do seu olho.

E passar por ali uma borboleta, um dente de leão, um gato preto na esquina caminhando para o mesmo lado…

…Vai olhar o vosso pé.

 

 

 

#elenão

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar numa abelha, numa mosca, um mosquito. Tinham-lhe dito que quando isso acontecia, de entrar um insecto, devia virar o ouvido para a luz e esperar que ele saísse, procurando a luz. Uma metafísica de asas. Girava a cabeça para a janela, e o que rodopiava para dentro da orelha eram os sons habituais. O autocarro tentando parar, a descarga do vizinho, o cachorro do terceiro andar.

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar numa duna, a areia rodopiando para dentro para dentro, escorregando. Comichão. Não se podia fazer, tinham-lhe dito, ainda assim ia o dedo, a unha, a mão inteira se pudesse. Não encontrava nada. Era uma parede lisa. Girava a cabeça para baixo e ouvia os sons habituais. O duche da vizinha, um assobio, o estendal enferrujado.

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar numa palavra, uma ideia, um olhar. Tinham-lhe dito que as palavras moem mas não matam. Girava a cabeça para baixo e dava umas pancadas por cima. Não escorria água, nem palavras. Giravam por dentro do ouvido, e faziam ninho sobre as sobrancelhas. Olhava então para fora e o que via não era habitual.

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar no passado, o que fora, estava nos livros. Mas depois a biblioteca ardeu. E ardeu o museu. E até os jornais arderam, e as pessoas estavam sozinhas com as abelhas nos ouvidos, por dentro das orelhas, pensando que as palavras não matam.

E era o ódio que moía.

Pergunta

A pergunta pela vida chega. Como é que eu sou filho do meu pai? Porque é que tu és minha mãe? POrque é que eu, sou eu? Como é que as galinhas sabem que os filhos são pintainhos? Porque é que a minha avó é tua mãe? E se o Lucas não fosse meu primo, o que ele era?

E investigas.

Mas a vida vem com seu contraponto, disposta a não ser nunca mais a mesma. O que é morrer?O que é matar? Porque o avô Luciano estava doente? Mais doente do que quando me doeram os ouvidos? O que é que ele tinha? E onde ele está agora? Se eu lhe telefonar, ele acorda? Ele está desmaiado? Se eu puxar a pálpebra dele, o que acontece, ele acorda? Mas tens uma foto? Eu quero ver.

(a morte…para quê ver a morte?)

Ainda assim nenhum de nós sabe bem o que responder. Um bicho chamado cancro que estraga o corpo, estar como a dormir, a descansar, já não respirar, agora já está, mas podemos sempre nos lembrar, ele teve uma vida cheia.

Faltou eu lhe dizer uma coisa, liga-lhe que faltou eu lhe dizer uma coisa.

O quê filho?

Que pena que vás morrer avô Luciano.

Ele sabe filho, ele sabe que tu tens pena.

Como?

Essas coisas sentem-se.

Ah.

 

Insiste, quer ligar-lhe. E o teu pai? O meu está vivo. Então porque estás triste? Tenho pena que ele morra, o teu abuelo. Ah. E eu ? Tu também. Eu também estou triste? Sim tu também. Vou ter tantas saudades tuas. Minhas? Quando morreres.

(Quando eu morrer…Um dia. É verdade.)

Tu vais morrer mamã?

Um dia, mas não penses nisso.

e o que vai acontecer comigo?

(não somos todos, crianças afinal, esperando que os nossos pais saibam as razões de tudo, e por saber a razão, e a origem, talvez a origem, parem as coisas que não queremos, parem a morte, a tristeza, a doença? E quando eles são víctimas dessas coisas, como lhes perdoamos a sua falibilidade, a sua pior falha, a de serem afinal tão de carne e osso como as carnes e ossos? )

Vais ficar bem, não te preocupes.

Como é que tu sabes?

Não sei, imagino.

E o avô Luciano, dizemos avô Luciano ou dizemos o que morreu?

Dizemos avô Luciano, porque quem ele é não se resume a como ele está.

E onde é que ele está?

Em casa dele.

E se eu lhe abrir o olho?

(O olho dele é de cinza, o olho mais azul, mais curioso, franzido em correções, deleitado em coentro, o olho dele é de cinza)

Não acontece nada.

Ele está me a ver?

Não.

Como é que sabes?

Não sei…

 

Só sei que faltou dizer, que pena, que pena que morras.

 

Cadernos da Flip

Eu se pudesse tinha uma casa.

Se pudesse ter uma casa, a casa teria jardim.

Não demasiado, as plantas morrem nas minhas mãos.

As minhas mãos são pequenas e por isso, talvez, as plantas morram nas minhas mãos.

Eu não tenho uma casa e as plantas morrem nas minhas mãos.

Se eu tivesse uma casa, as plantas morreriam nas minhas mãos?

Ou nos meus pés?

Eu se pudesse tinha uma casa, e nessa casa teria um jardim e muitos quartos, chamaria escritores e ilustradores e artistas promissores para lá viverem, comigo, com o meu marido e o meu filho. Não sei se eles gostariam, por isso os artistas teriam que ser fofinhos e com bom caracter.

Se eu pudesse ter essa casa, não chamaria casa do sol. Mas Coça-te.

Casa Coça-te. Rasca-te, arranha-te, suavezinho, coça, coça, comicha, mordisca, levanta a cútis como quem descasca um barco.

Se eu pudesse, afirmava assim, no nome da casa, certa postura de vida. A vida dá urticária. É sabido.

Nessas casa, as letras que diriam Coça-te seriam em cores diferentes, vermelho, azul, verde, amarelo. Diferentes entre si, entendam, porque as cores são das poucas coisas estáveis neste mundo. As cores e as cócegas.

Nessa casa eu penduraria um conto, que ainda não escrevi mas começaria assim:

Chico Buarque de cueca.

Porque ele é muito mais lindo que o Caetano, e já se escreveu um livro para o Caetano, e começava assim, disseram.

É de uma italiana que se chama Igiaba.

É isso mesmo, é italiana, e fiquemos por aí, guardem suas cócegas por onde vos couber.

Chico Buarque de cueca.

Esse seria um começo como deve de ser.

Mas Chico Buarque tem mais cara é de usar sunga.

Chico Buarque de Sunga.

Nessa casa, se eu pudesse eu tinha uma casa, toda a ordem é fonética.

Cueca não fica bem com Chico.

Sunga fica melhor.

Essa seria uma lei, lá nessa casa, que eu teria, e se chamaria Coça-te, mas ainda não sei que diriam o meu marido e o meu filho, de todos aqueles artistas, de bom caracter, só gente tranquila, ali vivendo, e escrevendo e desenhando, e remendando as dores do mundo, no raspar de suas peles.

Toda a ordem é de som.

Casa Coça-te, desafio sonoro.

Chico Buarque poderia vir, até sem sunga, ou seja, com a cueca por debaixo da roupa, eu não ia complicar a visita dele:

Podes vir Chico.

Lá na casa ninguém ia querer saber de que lado caem as gotas de chuva no rosto escavado do Chico. Lá na casa, que eu teria se pudesse, só se obedece a uma lei.

Há poucas casas, dessas, onde a poesia mora, só coçando, coçando, coçando…

De volta

Chamou o uber do Cristiano! Ah, pode ser. Eu estava aqui do lado a terminar um serviço, e já começou plimplim, que é outro serviço que aparece para mim, rápido, você viu, uma mulher chamou o meu uber, cheguei lá, ela não estava, liguei, ah é que costuma demorar tanto que chamei e fui tomar banho, já viu negócio desses? Falei, pode deixar minha senhora, tome seu banho que tou aqui lhe esperando, sempre chego rápido, sempre.

A camisola é amarela, o colarinho escangalhado no recorte, quase que lhe posso ver os dedos subindo e descendo. A pele repleta de borbulhas, como de sarampo mas sem vermelhidão, ou era varicela? Montes de pele e gordura, nas mãos, no pescoço, no rosto. Sem vermelho, cor de pele, da pele dele que é a única cor de pele que dá para ter e ninguém vende lápis de cera personalizados: a sua cor de pele. No que toquei? Abri a porta, sentei-me, toquei o botão de abrir o vidro. O que é aquilo na pele dele? Ele cospe enquanto fala, sem querer, que daqui a lisboa ele faz três horas, e que vem os carinha de lisboa de trem, já viu uma coisa dessas? Nas mãos as borbulhas são menores, mas no rosto são pequenos sinais, saem pela pele como numa despedida, esgueirando pescoços e dores. Pelo retrovisor só os óculos de sol, escuros, muito escuros. A minha perna toca o assento, a saia não cobre até aos joelhos, pelo menos não enquanto estou sentada. Na porta rebuçados mastigáveis, de lá. Do Brasil mesmo, como vos digo. Uva amarga, alperce, banana. Os ossos mastigam acidezes, uva amarga. Aquele rebuçado eu já comi, lá no Brasil, não é amargo, é ácido.

Para onde você vai? Para a estação. Vai para o Porto?- Homem porque você não foi ao dermatologista? Você dói-se de bolhas? Cospe raivas nas palavras e nas arestas redondas com que o sol cava, cava, cava.- Vou. Ah, se fosse de carro, ia já-lhe falar, vá pela nacional que todo o mundo pega autoestrada, Cristiano sabe sempre por onde ir, os caminhos que não tão cheios, por isso que lhe pergunto, pela nacional chego lá em quinze minutos. Em quinze? Com este trânsito? Pela nacional não se apanha, eu sei.

Ele sabe. Braçadas de cimento enchem-se de reflexos, batem no retrovisor, no olho do Cristiano e do olho do Cristiano escorrem para os montículos.

É isso, que vos quero dizer: Montículos. De pele. Sardas. Escamas.

Tenho pena de ter medo, ter medo de coisas que não sabemos se fazem mal é ser muito mal educado. Posso fingir que sou mais educada, que não estou a pensar que são como chagas. Os montículos. Como as lepras, as varicelas, os cuspos. Cristiano não ouve o que eu penso. Ainda assim, vou calada.

Pela nacional os caminhões não podem ir, tá proibido, caminhão não pode ir por ali não.- Camião, Cristiano, Camião. Camião não caminha, Cristiano, corre e paga portagem e os camionistas queimam os braços, e os olhos, e as testas de kilómetros e silêncios- Boa viagem dona, se der para colocar cinco estrelas dona, eu agradeço. Coloco sim Cristiano.- se for para ires no dermatologista, dou-te até propina, que mal educada, descortês, ignorante, snob que sou. Cristiano não ouve, espreita-me as pernas presas no manipulo da porta, a mochila prende-se ao fecho, a carteira repuxa-me o braço, castigo, só pode, dos nervos dos montículos, das covas, dos buracos, das bolhas, das dores, das cores, das penas, isso das penas que arrancaram o que nunca esteve. Onde é que eu toquei meu Deus, onde?

comboio

Esperava outra coisa. Uma mesinha maior, das que saem da janela, convidam os braços a se espreguiçar em copos de papel e café. Imaginava que ia ter tomadas e ligação à internet. A minha mãe tinha-me dito que podia lavar e pentear o cabelo, e fazer as unhas. Nunca faço as unhas, as unhas estão feitas. Desde cedo. Parei a pensar nisso, nas coisas mais estranhas do corpo. Um bebé, na barriga da mãe tem unhas, e tem olhos.  Se é mulher, espera-se dele que pinte os olhos e as unhas e os cabelos. Que não tome muito banho para não enfraquecer fios e secar a pele. A pele quer-se aveludada. Cremes. Caros. Caviar. Comboio, era aqui que eu ia. Na história, e também na realidade. Esperava outra coisa. Os joelhos tocavam o plástico branco, e uma pranchinha perra imitava mármore. Cabia ali um livro. Desses ilustrados que são compridos como cadernos a4 mas rachados ao meio. Encurtados, comprimidos, cheios de design.

Eu não gosto nada de andar a fazer isto, ele gritava. Vocês acham que eu gosto de andar a fazer isto? E depois sorria, um sorriso largo num homem estreito. Vocês acham que eu gosto de andar por aí a dizer a toda a gente: sou seropositivo, tenho sida, acham? Speak portuguese? Sida, Sida!

Caiam moedas europeias na mão em concha. Thank you. O comboio ajeitou os cabelos no tal cabeleireiro que a minha mãe falou. Ai ai, ai ai, ai ai. Ter sida era menos assustador que arrancar para Braga. As moedas não chegariam e de qualquer forma o comboio já ia cheio. Ele desceu. Quem lhe deu moeda pensou no seu lugarzinho no céu. Quem não lhe deu pensou na folha mal fotocopiada em que se explicava a Sida, e nos cafés escuros de Santa Apolónia.

Eu pensei que não estava na Holanda. Claro que não ia ter uma boa mesinha de trabalho.

Speak portuguese?

É isso.

Chegaram com malas sacos e olhos postos no lugar vazio ao meu lado. Não, a sua é a carruagem 22. A 23. A twenty-five. Aqui moço, é a 21. Mas o lugar é este. Todas as carruagens tem cadeiras numeradas da mesma forma. Ah. Ah é verdade. Uma verdade, por dia.

O comboio arrancou. Com-Bó-io. Com-Boi-o.

Portugal tem cor de brócolo.

Não sei se os bois comem brócolos.

Eu tenho fome.

De momento é tudo.

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