amêndoa

O sal. Pouco. Torrado apenas, o caju, o amendoim. Torrada apenas, a amêndoa, a avelã. Comprei à pazada, ao peso. Rebolaram amenos para dentro do saco castanho. Em casa mudei-os, todos para o frasco, um tubo cinzento baço, comprando a 13 euros, 3 iam para a unicef. Na ponta uma espécie de taça-tampa. Servi.

Amendoacajuavelaamendoim,amendoimavelacajuamendoa.

Uma amêndoa viva.

As asas largas, riscos em madeira, as antenas quietas, saltou sobre a avelã descascada, queria subir a taça.

Uma amêndoa viva.

Gregor? – eu perguntei

E a amêndoa nada, a subir a subir a subir.

Gregor?- perguntei de novo.

E nada.

Não seria.

Esmaguei a amêndoa à contraluz, entre a porcelana e o cartão. Quase sangue sobre o sal.

Traça.

Não comi mais.

enigma- desabafos

Numa análise, tropeçamos sempre com o que não sabemos, não podemos saber, não há ninguém que saiba.

Não é preciso que seja uma análise, da psicanálise, basta que seja um debruçar-nos sobre um texto, uma obra, um poema.

Como escritor, como escritora, seria perfeito conseguir fazer isso de propósito, colocar o outro, o pequeno outro, qualquer um, no lugar desse confronto.

Querido Lacan, és o melhor escritor do mundo.

Raios partam.

ao fundo, à esqueda

É logo ali, depois do cemitério. Desces, sabes, depois do cemitério, há uma que sobe, uma que vai em frente, uma que desce. Tu desces, desces, desces de novo, ja vais a tempo de subir. Depois sobes, sobes, sobes. Quando ficares com falta de ar e sem passeio, atravessa a rua, estás quase lá.

A porta está aberta, e por isso podes entrar e descer, descer, descer, descer, descer e é depois à esquerda mas isso vês logo, porque não há mais para onde ir.

A sala cheia.

Um homem já fala, fala, fala. A mulher a teu lado comenta tudo o que o homem diz.

o homem não é Deus, mas estamos aqui para o ouvir. ele sabe. fala, fala, fala.

E a mulher ao teu lado comenta. concorda com o corpo todo, e sacode-se como um pavão com frio. tosse sem pôr a mão na boca.

odeias pessoas, no fundo, odeias.

Cale-se senhora, e tape a boca quando tosse.

mas desceste tanto tanto tanto tanto tanto, que ficas calado, e o homem fala, fala, fala, fala, e esqueces a mulher que tosse e que conta em gritos sussurrados que vai para o alasca,

quero lá saber.

e depois o homem diz que leu, num sítio cujo nome não sabes escrever, que um anjo forjado a fogo, dura o tempo de uma canção. e isso é bonito. porque há tanta gente que nunca fez mais que cantar uma canção. e gente que nunca nem cantou uma canção, e afinal quanto dura uma canção, e quanto duramos sem que ninguém nos oiça, ninguém nos leia, ninguém nos pense, e depois lembras-te que agora somos todos, o tempo de uma canção e que talvez cantemos para senhoras reformadas, que comentam tudo e tossem sem pôr a mão na boca, e ainda assim, ainda assim, aqui, depois de descer, descer, descer, descer…

e o homem continua a falar, a falar, a falar, e a senhora a tossir, a tossir…

E e A

O E e o A estão transparentes.

o A teve cócegas na barriga, desmontou-se como um bolo desses que se chamavam pirâmide e tinham uma cereja no topo, uma franja de chantilly e eu nunca podia comer porque eram feitos com restos de outros bolos e deus nos livre da salmonela.

o E parece o senhor Doc, do regressar ao futuro. Ou uma sapatilha com rodas. Ou o sinal torto de um trovão. Esfarelou-se em movimento. o E.

o A. esfarelou-se quieto.

o E e o A estão transparentes.

os números, esses danados, estão como novos.

Dos livros deste ano


mês livro e autor
1/1/18 O tumulto das ondas- Mishima
1/1/18 Canções mexicanas- Gonçalo M. Tavares
lindo 1/1/18 A primeira pessoa- Ali Smith 
1/1/18 Homens imprudentemente poéticos- Walter Hugo Mãe
1/2/18 Amor e outras histórias- André Santanna
Maravilhoso 1/2/18 Autobiografia do vermelho- Anne Carson excelente
Perfeito 2/1/18 Um cavalo entra num bar- David Grossman
1/2/18 Distancia de resgate- Samanta Schwebelin
1/2/18 Confissões de um assassino- Joseph Roth
1/2/18 La nostalgia feliz- Amelie Nothomb
Clube de leitores Gonçalo 1/2/18 O mandarim- Eça de Queiroz
1/2/18 Requiem- Antonio Tabucchi
1/3/18 Mrs Dalloway- Virginia Woolf (2x)
mt bom! 3/1/18 O primeiro homem mau- Miranda July
1/3/18 Aldeia Nova- Manuel da Fonseca
1/3/18 O fogo e as cinzas- Manuel da Fonseca
1/3/18 O sonho dos heróis- Bioy Casares
1/4/18 Miniaturas- Andrea del Fuego
1/4/18 O pendura- Jules Renard
1/4/18 Um acontecimento na ponte de Owl Creek- Ambrose Pierce
clube leitura Gonçalo 1/4/18 Manifestos- Almada Negreiros
1/4/18 Flush- Virginia Woolf
1/4/18 O primeiro amor- Ali Smith
1/5/18 Diário sentimental do adultério- Filipa Melo
1/5/18 Diário da queda- Michel Laub
clube Gonçalo 1/5/18 Loucura- Mário de Sá-Carneiro
1/5/18 Na memória dos rouxinóis- Filipa Martins
1/5/18 A festa da insignificância- Milan Kundera
1/5/18 Pureza- Jonathan Franzen
1/5/18 O pequeno abismo- Raymond Chandler
Escrevedeira- entrevista 1/5/18 Opisanie Swiata- Verónica Stigger
clube Gonçalo 1/6/18 Coração, cabeça e estômago- Camilo Castelo Branco
1/6/18 Vento sul- Vilma Areas
Lindo, lindo 1/7/18 Animais domésticos- Luana Schnaiderman
1/7/18 O homem comum- Philip Roth
1/7/18 Eles não moram mais aqui- Ronaldo Cagiano
beleza pura 1/7/18 Bruno Schulz conduz um cavalo- Leda Cartum
1/7/18 O coro dos defuntos- António Tavares
1/7/18 O luto de Elias Grou- João Tordo
mt bom 1/9/18 Um bailarino na batalha- Hélia Correia 
clássico 1/9/18 O primo Basílio- Eça de Queiroz 
Lindo lindo 1/9/18 Sonhos de Einstein- Alan Lightman
1/9/18 O Delfim- José Cardoso Pires
1/10/18 O caso Sparsholt- Alan Hollinghurst (não terminei)
Fora do comum 1/10/18 O mestre-Ana Hatherley 
entrevista escrevedeira-mt bom 1/11/18 Antonio- Beatriz Bracher
1/11/18 O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo- Germano de Almeida
clube Gonçalo 1/11/18 Poesia- Sophia de Mello Breyner Andersen
perfeito 1/11/18 O rei faz vénia e mata- Herta Müller  excelente
1/11/18 Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha- Liudmila Petruchévskaia
o livro perfeito…maravilhoso 1/12/18 O amor dos homens avulsos- Victor Heringer- MARAVILHOSO
12/1/18 O falecido Mattia Pascal- Luigi Pirandello
12/1/18 A vegetariana- Han Kang






Queridos que sempre pedem recomendações, não deixem de ler :

Um cavalo entra num bar- Grossman

O amor dos homens avulsos- Heringer

Autobiografia do vermelho- Carson

O rei faz vénia e mata- Müller

Os sonhos de Einstein- Lightman

Os animais domésticos- Chnaiderman

Se em 2019 lerem estes 6 livros, já será um ano diferente!

araújo

O senhor Araújo. De seu uma pasta, um fato, uma lata de grão.

Uma filha, que escrevera na secretária, que era de madeira e não uma pessoa. A pessoa que era mãe da filha, vestia saias verdes.

Ele era, obviamente do sporting.

O amor ao clube, dava-lhe pele de galinha, e outras mudanças no corpo.

Depois fez-se velho, deu-se conta, deu, mas muito de vez em quando. 

Tinha um sobrinho, ajudou o sobrinho, mas nunca se decidiu a gostar dele. Não soube se o sobrinho o apreciava ou não. Não soube se era apreciável. Era leal, apesar de nunca ter percebido que quando fez a filha, violou a mulher de saia verde.

Ela final até gostava dele. Ainda assim, aquilo tinha sido uma violação.

Araújo era do sporting, mas as suas escovas de dentes, nenhuma era verde. E tinha muitas. Para os dentes, para a língua. Para o pequeno almoço, para o almoço, para o jantar.

Deixa-nos a pensar o que é a vida e se temos uma boa higiene oral.

 

Reflexões sobre o Testamento do Sr. Napumoceno de Araújo, de Germano de Almeida.

estetoscópio

O quarto é branco. Bem branco. Armários, janelas, paredes. Por isso a cama é tão escura, de uma madeira grossa, oriental, colada com força por algum alemão que come muita proteína. Sim quase ao contrário do que costuma ser. A mesa de noite é de madeira também, outra madeira, adocicada e com nome de fruto. Para ler, um candeeiro com cara de estetoscópio. A luz cai na página e cega um pouco, ela as vezes acha que são as palavras. 

É difícil saber ao certo, sobre as palavras apareceram umas asas, de mosca. Pequenina e rápida, dessas de casa de banho, ela pensou. A mosquita, dessas de casa de banho, no quarto voando perto da luz. Vai-se queimar, talvez. Pousou na sombra enquanto ela lia. Voltou para a lâmpada quente quando as palavras sossegaram. Inquietou-se. Fugia à metáfora, a mosquita, e ela dormiu inquieta.

digressões

Os dois gatos, um branco e outro preto, estendidos ao sol, as portadas azuis abertas e os vizinhos chineses descarregando o camião branco com letras vermelhas, que eu não sabia o que significavam e pensei em copiar e perguntar depois, mas não tinha nada em que escrever, nem caneta, nem lápis, só uma afiadeira na carteira, guardava sempre alguma por lá, no bolso pequeno, uma afiadeira e as chaves, a da casa nova e a desta que ainda tinha porta-chaves: um quarto amarelo e uma cama azul, o quarto do Van Gogh que seria um bom nome para o gato preto que tinha uma orelha ratada, comida por um picotado qualquer, mas que acabara por se chamar Fifico porque era o nome que o meu filho gostava, Fifico, e a outra Fofuca, o gato preto, o gato branco, uma família de cinco, nove orelhas normais e uma a meias.

 

A rua caía para a direita, cheia de paralelipípedos desfocando, desfocando, e o centro da imagem escorria pelo ralo grosso da sarjeta oxidada, a mão fria, o calo magoado de segurar o lápis que transcrevia as linhas torcidas do edifício arte nova, subiu mansa até à orelha, furou o cabelo húmido e teso, preso num elástico tão forte que fazia a cabeça doer um pouco, os dedos procuraram a haste e o sangue voltou às pontas cansadas, às unhas moles, às peles rebeldes de manicure, a haste estava ali, hesitante, entre o rosto, o cabelo, a orelha e os dedos empurraram a rua de volta, para fora da sarjeta procurando os postos de luz que em breve se acenderia, ao céu escuro carregado de urgências de chuva e os paralelípipedos ficaram claros, recortados e perfeitos de arestas, e pude voltar a desenhar.

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