Pergunta

A pergunta pela vida chega. Como é que eu sou filho do meu pai? Porque é que tu és minha mãe? POrque é que eu, sou eu? Como é que as galinhas sabem que os filhos são pintainhos? Porque é que a minha avó é tua mãe? E se o Lucas não fosse meu primo,…

Cadernos da Flip

Eu se pudesse tinha uma casa. Se pudesse ter uma casa, a casa teria jardim. Não demasiado, as plantas morrem nas minhas mãos. As minhas mãos são pequenas e por isso, talvez, as plantas morram nas minhas mãos. Eu não tenho uma casa e as plantas morrem nas minhas mãos. Se eu tivesse uma casa,…

De volta

Chamou o uber do Cristiano! Ah, pode ser. Eu estava aqui do lado a terminar um serviço, e já começou plimplim, que é outro serviço que aparece para mim, rápido, você viu, uma mulher chamou o meu uber, cheguei lá, ela não estava, liguei, ah é que costuma demorar tanto que chamei e fui tomar…

comboio

Esperava outra coisa. Uma mesinha maior, das que saem da janela, convidam os braços a se espreguiçar em copos de papel e café. Imaginava que ia ter tomadas e ligação à internet. A minha mãe tinha-me dito que podia lavar e pentear o cabelo, e fazer as unhas. Nunca faço as unhas, as unhas estão…

vermelho vivo

Ontem e hoje passei no semáforo. Indo e vindo. O cão não estava. O homem de camisa preta também não. Passou um autocarro que dizia reservado, e fazia as mesmas paragens que os outros. O meu filho explicou-me que ele e o amigo se sentam com a Laura. A Laura é muito bonita ele dizia….

русский!

Aconteceu no verão. Mais precisamente na noite em que o dia vinte de junho cedeu suas arestas arredondadas para o dia vinte e um. As crianças penduravam nas paredes desenhos de areias e chapéus de sol, coisa que caíra em desuso em 2018, quando tudo eram toldos e palmeiras. Perto do aeroporto Maria Conceição Silva,…

pintas

Não tenho passado pelo semáforo. Não sei nada do cão, mas fico a pensar. Quando eu penso, faço perguntas. No Young Pope o Jude dizia que era assim que se devia rezar. Fazendo perguntas. Vi logo que aquilo era mão do diretor ou do guionista. Artistas. Rezam a fazer perguntas. Se as respostas não chegam?…

vermelho II

O homem não estava. Só o cão. Havia outro homem, gasto. Podia ser o primeiro homem se tivesse viajado no tempo e mudado a camisa. Era verde seca. Militar. O cão varria a esquina. As manchas brancas pareciam peladas, ao longe. Este homem não tinha medo do cão e por isso alçava as pernas e…

vermelho

O homem estava de negro. Na esquina e sacudia um braço. Ou uma perna. A fazenda negra suspirava de vento. Por dentro uma linha branca, enrugada em linha recta, prendia-se ao pescoço. Não chegava a estar assustado. Nem a deixar de estar. Sacudiu o pé. Uma ovelha castanha aproximava-se e distanciava-se. Raivosa. O castanho farfalhava…

exercício escrevedeira

  Noemi pediu para escrevermos: alguém, sem usar nomes, espera um uber. Linguagem simples e quotidiana.  Aqui vai: Três toques, bem longe. Pode falar. Oi, tou à sua espera, demora muito? Ele tosse. Tou no semáforo. Não gostou da pergunta. Qual semáforo? Tá ficando verde, vou avançar agora. Certo, mas qual semáforo? Já estou quase,…