Luísa Ivone

Ler para saber dos outros, era como ler para saber dela mesma. Uma trivialidade de raciocínio, ainda assim, tinha para ela o lugar de um segredo.

Claro que não era a sua única fonte, havia outras.

Uma delas era um amigo.

Um amigo mais do tipo voyeur que do tipo curioso.

Um pardal amarelo que puntualmente chega à sua casa com as noticias, no instante que ela espalha a manteiga barata no pão francês.

Pardalinho, era tudo menos bobo.

 

semestre

ai ai que o semestre nos deixa num corre e corre

faz sol faz frio

veste despe

a caminho de algo

segunda já é dia de férias

mentira de sempre

sexta chega a despedida

e sábado um sem fim de possibilidades

Luísa Ivone

Luísa Ivone. Filha de Aparecida Ivone. Irmã de Ligia Ivone.

Ivone era nome de família sem o ser.

Eram filhas de Ivo.

E o Ivo não existia.

Luísa Ivone gostava de ler. Novelas bestseller. Se vendiam assim, só podiam ser boas, estava claro, dizia ela no cabeleireiro, no mercado, fazendo a unha ou conversando no metro.

Lia avidamente.

Agora de palavras ela não gostava. Palavra escrita menos ainda.

Luísa Ivone lia por motivos mais pessoais.

Pessoais dos outros.

Luísa Ivone lia para saber da vida alheia.

 

Lição de casa tentativa 2- Crime por descascar

Cinco e meia da manhã mais coisa menos coisa. Primeiro movimento de fim de noite, a procura de máscara para me esconder do sol que entra sem cerimónias. Nunca poderei entender porque as persianas aqui são tão descaradamente incapazes, sério, porque por persianas que só escondem meio raio de sol e não todo o raio de sol…raio de sol, mesmo. Todo o bairro é assim, com estas persianas a meio colocar, a meio fechar.

Segundo movimento do despertar, o banheiro, porque a estas alturas a minha bexiga está sinalizando algo.  A maior parte das vezes não está cheia, talvez tenha vocação teatral, e geme, esbraceja, grita, contorce-se até que cansado de drama, me levanto para a atender. O fiozinho miserável com que inaugura o dia irrita-me. Depois disso considero muito difícil voltar a dormir.

Levanto-me oficialmente, com dificuldade, sempre acreditando que com o café a coisa começa a compor.

Hoje então é domingo. E os domingos são dia do descanso do trabalhador. Trabalhador já não sou, agora sou velho a full time, mas ficou-me essa alegria domingueira.

Como é domingo, ela não se deve importar que eu faça café na cafeteira italiana, com o café bom que a Alice mandou desde a Colombia.

Onde estava o café bom? Ah sim deve estar na geladeira. Cafeteira italiana na prateleira mais alta, para desanimar o uso, esta minha mulher, poupada graças a deus, muito poupada. Como eu gosto das cafeteiras italianas, baças e gastas, oferencendo-se pesadas à mão, com aquela sujidadezinha que aprendi lá na força que não devemos lavar com detergente. O cheiro do café que tenho que tirar com colher de sopa, o clic clic do fogo, a espera. Amanhecer finalmente começa a dar uma alegria.

Vou abrir as cortinas, já entra um solzinho. Irei até à padaria, ou faço torradas? Padaria abre às 8? Ainda falta. Melhor torradas. Ah ela já não compra pão a mais, que bobagem, fazia mesmo falta para agora. Como deve ter sofrido um homem para ter necessidade se ser bobo…de onde era isso? “ Nenhuma leitura conheço que tanto despedace o coração como a de Shakespeare: como deve ter sofrido um homem para assim ter necessidade

de ser bobo! “ E que bobeiras nos traz ser velho, torradas e café são a alegria do dia. Nem sei como é isto da memória, como era mesmo que dizia a Alice…algo sobre lembrar bem coisas de antes. Ah sim, era isso, que era comum lembrar mais coisas de antes. Estas frases que me vem a mente, devo ter lido em algum lugar…era um livro branco e verde, com letras tipo antigas. Nome diferente.

A cidade ainda dorme, os que saem à noite e se acabam de deitar, os que ficaram de sobremesa conversando ainda fazem ronha na cama. As crianças ainda descansam as pernas, cansadas de tanta brincadeira. “Compreender-se-á o Hamlet? “   Exacto falava de Hamlet o tal do livro, mas não era bem sobre isso, Não é a dúvida,

mas a certeza que enlouquece… Mas para assim sentir importa ser profundo,

abismo, filósofo… Era isso, eu lia nessa época, devia ter os meus quarenta, foi quando mataram aquele moço numa manhã, isso era bem de manhã, umas cinco, quando eles ligaram: Faustino tens que vir, mataram a um lá perto da Paulista, parece coisa feia!

Reclamei tanto, nessa época os meninos iam passar o fim de semana a casa dos avós, então nós aproveitávamos para o combo comer fora, cinema, tomar algo. Sábado era a noite da glória, e o domingo era para dormir. Fui lá, café do de filtro na mão, dirigindo sem cinto, coisas bem da época. Quando cheguei percebi o que me tinham dito…melhor nem lembrar o estado do moço. Deu-me a fraqueza, nesse momento, lembro-me disso, e só me conseguiram amendoins que tinham ficado na mesa do bar. Deu trabalho esse caso. Entrevistas, conjecturas, muitas conversas e muita noite sem dormir. Achavam lá na força que tinha sido o namorado, uma coisa de briga de enamorados, o corpo assim despedaçado, isso era crime passionalósexual.

Demorei muitos anos a perceber que não. Era coisa de heranças. O pai mandou-o matar. Ninguém podia pensar nisso…Todos temos medo na presença da verdade…”* era isso, a verdade era tão crua que não a podíamos enxergar.

Será que com o café ia bem amendoins? Ai o café!

*Nietzsche Ecce Homo

lição de casa

Este texto é um exercício para o curso Recursos da escrita criativa, dado por Noemi Jaffe na Casa do saber. Noemi pediu que fosse sobre o amanhecer, incluindo uma digressão. A digressão partindo de uma citação filosófica. Como só consigo pensar no livro do Primeiro Homem do Camus, aqui vai o texto inspirado nele.

 

As noites estendem os seus braços até ao amanhecer, envolvem-no rápidas e nele se dissipam como nuvens em dias de calor.

Aqui o amanhecer é rápido, um abraço como um encontrão entre dois seres que estão familiarizados com o corpo um do outro, há um susto, um som, um sopapo, um embate. Mas esse embate desenvolve-se imediatamente numa toque de reconhecimento, aqui está o braço e abraço, o peito e o afago, a face e a carícia.

Lembro-me desses encontros apenas com meus filhos, com meu irmão. A minha mãe, mesmo idosa, era uma muralha de vidro, se chocavas com ela, corrias o risco de te quebrar tu em mil fragmentos que te poderiam, em maior ou menor grau, perfurar como palavras afiadas.

Sempre soube que as palavras eram como instrumentos, jamais soube usá-las.

O meu mais pequeno sim, desde sempre soube que ele era um artesão. De algo desconhecido. Quando chocávamos no escuro da casa vazia, Jaques encolhia-se tímido e sempre me dizia algo doce: um desculpa mamã proferido como um beijo na testa, ou por aqui mamã sussurrado como esse perdão divino que tantos procuram.

Isso do encontrão, é como a história essa que ele deixou aqui…dos porcos espinhos que tem frio e se juntam, mas depois se ferem e se afastam…algo assim.Quem escreveu esse livro acharia que eu vivo na perfeição, como era que dizia…”Assim a verdadeira e profunda paz de coração e a perfeita tranquilidade do espírito, esses bem supremos sobre a terra depois da saúde, não se encontram senão na solidão e para que sejam permanentes, na incomunicação absoluta.”

O senhor que escreveu isso, antigo parece, alemão disse o Pierre, não é de estranhar…sabia algumas coisas, parece que influenciou uns que influenciaram o Jacques. Ele sim gostaria destes amanheceres, dizia sempre que lá em França não há amanheceres como estes.

Estes são como um fogo que arde, que chega de peito nu, enrolado como véu de mulher mas que se recusa a ser mortalha, despe-se para ver o dia que chega, sempre como se não houvesse memória do que passou. Aqui neste país a memória é como o amanhecer…

Sempre gostei de me sentar aqui, nesta cadeira que minha tia ofereceu, olhar a rua, as pessoas passando distraídas de si, incapazes de imaginar que são observadas. Não lembro como era antes quando eles eram pequenos, quando eu era pequena, parece que olhando-as me esquecia de mim. Deve ser como o que dizia o alemão, o que eu sentia na época, “Em tese geral só consigo mesmo se pode estar em perfeito uníssono; não se pode estar assim com um amigo, nem com a mulher amada, porque as diferenças da individualidade e do caracter produzem sempre uma dissonância, por mais pequena que seja.”. Devia sentir algo assim, já não recordo.

Cada vez que Pierre me lê esse livro, essa noite fico aqui, sentada para ver a noite abraçar o dia. Procurando essa paz de espirito de que ele fala.

Leio tudo o que Jacques deixou aqui por engano, também os livros que ele ofereceu ao irmão, ou a Pierre. Mas nunca a ele. Nunca leio Jacques. Nunca leio para falar a verdade, é Pierre quem aos domingos me traz hummus da cidade, toma um café e me lê o que sobrou do meu filho.

O amor de uma mãe é como outros amanheceres, talvez como esses da França que ele contava, mas certamente não como os da Alemanha. É lento e eterno. Como nesse encontro casual, o tempo em que reconhecemos, mesmo no escuro, as palavras não ditas, as lágrimas não choradas, tudo devagar, já sem o susto do embate, sem a estranheza do desencontro.

É por aqui mamã, escuto ainda todos os anoiteceres, e todas as manhãs recordo que não o escutarei jamais, nesta solidão, senhor alemão, não há nada de perfeito.

  • Inspirado no Primeiro Homem de Albert Camus
  • * Citação de Schopenhauer

Filó II

Então, ontem dia que dormi com os pés ao léu, foi um dia fora o comum, diria até que um pouco louco, se não acreditasse tanto como acredito na ideia absolutamente perfeita que eu tive…

Para vos contar esta ideia, a vocês interlocutores confiáveis, mais confiáveis que padre ou psicanalista (será que um psicanalista se veria obrigado a chamar a polícia e contar os meus planos? Não sei, mas certamente supervisaria…e os padres, os padres já todos sabemos que não são de confiança, ou a expressão rádio vaticano seria inexistente…)Então, vocês que ficaram capturados por usar meias ou não usar meias, hamlets da roupa interior, vocês precisam de saber algo mais sobre mim, para perceber o porque desta genialidade inesperada.

Eu sou a Filomena, casada com o José, mãe da Marília e do Amado. Costumamos começar por aí, certo? Quem temos, sobretudo se o que temos não aplica.

Vivemos na zona leste, um bairro não considerado nobre, contudo o nosso apartamento é bastante bom, noventa metros quadrados, zona de lazer em que a piscina, costuma funcionar pelo menos metade do ano. Temos um carro, chevrolet negro e não somos religiosos. Casámos cedo, eu e o José, acho que se pode dizer que não somos pessoas de encanar a perninha à rã.

Vivemos tranquilos, cheios de rotinas, levando os meninos à escola no horário, recolhendo os meninos da escola bem na hora de ponta, cozinhando lentilhas à terça feira e feijoada ao sábado. Tudo ordenado em nossas vidas.

Tudo excepto o país em que vivemos, que já será de vosso conhecimento, a necessidade profunda de arrumação geral que temos, aquilo que a minha tia Lucilda chamava de limpeza de primavera.

A tia Lucilda, agora que penso, também falava muito de meias. O marido tio Amâncio, espanholasso usava sempre meias na hora h, coisa que ela contava intrigada. Aparentemente, ele lera que ajuda a ter uma vida sexual mais activa, pular essas preocupações de etiqueta, ou o algodão numa extremidade, ajudava a que tudo fosse que nem seda, noutra? Fazer amor à inglesa, era como ele lhe chamava, quando se defendia publicamente das confidencias da  esposa. Suponho que nisso como em tudo, não há muitas regras…

Enfim, vamos à ideia.

Hoje como todas as manhãs, levo os meninos à escola em jejum, assim que acordo tomo o comprimidinho para o ferro, chupo um limão e corro para o omnibus.

Na volta preparo o pequeno-almoço para o Zé e para mim, e conversamos um pouco.

Ele toma café com leite, eu café puro. Em geral ele conta coisas lá no banco em que ele trabalha, e eu escuto, porque ninguém fala das linhas com que cose roupa alheia…Lá na sucursal do Zé, acontecem sempre as coisas mais bizarras.

O chefe que chega sempre ou uma hora mais cedo ou uma hora mais tarde, a companheira de balcão que pinta as unhas de vermelho bem garrido, e se veste como judia ortodoxa, o segurança que não vê de um olho, o motoboy que vai ter o sétimo filho, a senhora de idade que se nega a tirar a senha de prioritária…Tudo ele me conta ao pormenor, fascinado, e fascinada eu escuto. Não pelo que ele conta, mas por ele, gosto demais dessa narração que ele cria, dos jeitos com que conta, os olhares que descrevem tão bem o que ele sentiu…

Gosto muito do meu Zé, ainda que às vezes senão fosse por esta narração telenovelesca, eu não conseguisse nem me lembrar que ele existe…

Levantei-me para trazer o açúcar e ao sentar de volta pensei:

Que é que ele tá falando mesmo?

Decidi escutar o que ele diz, mais além de como ele diz, e de repente algo apareceu em mim…

Filó I

Os meus pés à hora de ir dormir: o termómetro do meu humor.

Quando era criança dormia com meias. Meias, soquetes, peúgas: nunca soube qual era a denominação apropriada para aquele bocadinho de algodão que, preferentemente com bonecos, forrava a extremidade menos importante do meu corpo. Importantes eram as mãos que desenhavam, apanhavam um colega que corria, as mãos que tapavam os olhos enquanto contávamos até dez. Os pés foram uma descoberta posterior, por acidente.

Um dia, a dona Alice, porteira de reputação intermédia, apareceu em casa às 21.30. Saber como estamos, como encontrámos a casa, como estão as meninas, bla bla bla. Presenciou assim, por casualidade, a nossa ida para a cama. Quando temos oito anos, achamos que todos os meninos e meninas vão dormir igual que nós: pijama do snoppy ou da galinha pintadinha, a marca da geração e do género varia mas fora isso: homogeneidade.

Contudo, dona Alice ficou embasbacada de espanto, de terror, de profunda indignação: dormíamos de meias (soquetes, peúgas). No mundo da dona Alice, note-se que o d de dona é em letra minúscula para melhor caracterizar a personagem, todo o mundo dorme sem meias, porque as meias, vejam bem, mesmo quando acabamos de tomar banho e as calçamos lavadinhas: são sujas.

Ponto final parágrafo, as meias são sujas. Também os soquetes e as peúgas.

Aquele evento mudou a minha percepção das extremidades, os pés eram assunto nacional, e as meias assunto racional, tiravam-se antes de dormir.

O inverno cobrava o seu preço, no verão fazia até sentido.

Um dia por acaso dei por mim a recordar esta história, e decidi que se foda a dona Alice e as suas teorias bizarras (relembrei o caso dos smurfs desaparecidos em uma das visitas de seus netinhos) e calcei meias, soquetes e peúgas de novo.

Para que vos estou então a falar de termómetros? Indignados vocês foram lentamente pensando se se dorme com ou sem meias, certo?

Hoje em dia eu durmo com meias, quase sempre, verão incluído.

Cada tanto, acontece de me deitar e perceber que não consigo manter as meias…uma incapacidade de me abstrair desse tecido sobre os dedos dos pés, os calcanhares, o incómodo do elástico sobre o tornozelo…as peúgas falam-me, criticam-me, chamam-me…ponho os pés de lado, para cima…eles rebeldes resistem e formigam, ou doem um pouco fazendo o dormir uma tarefa impossível.

Nesses dias, aprendi a aceita-lo, eu tiro as meias.

E nesse dormir de pés ao léu eu vejo uma rebeldia contra o quotidiano, uma liberação filosófica, uma espécie de felicidade.

Ontem eu tirei as meias.

Perguntam vocês porquê…

Algo aconteceu de facto, só que não vos posso contar hoje…tenho que pôr a roupa a lavar.

Já volto…

Marco António III

Ali ficou vendo a luz mudar. Primeiro acariciara os tacos de madeira da entrada da cozinha, depois lentamente como numa valsa desconhecida foi-se deslocando, graciosa, o bar que era de sua avó portuguesa, a livraria magrinha magrinha mas que exibia orgulhosa os clássicos em edições de bolso, a mesa de jantar com suas frutas de plástico, a televisão velha com o seu crochet encardido…sedutora saíra pela janela, escondendo-se num farol de rua, desmaiado e abafado como quem denuncia uma mentira.
Não se pode dizer que pensava sobre a frase do estudante…para pensar fazem falta palavras. Naquele silêncio ele repetia músicas sem parar, como que tomado por um frenesim do passado. As músicas que escutava eram fragmentos da sua infância…o meu chapéu tem três bicos, o jardim da celeste, atirei o pau ao gato, ciranda cirandinha…frases soltas da sua professora primária, da sua avó, do seu avô, frases soltas de ninguém em particular…um padeiro, a peixeira. Fragmentos do passado que como estilhaços de granada feriam algo escondido nele.
Pensou por um momento que pensaria alguém que o encontrasse ali, naquele escuro, naquele silêncio. Imaginou que a pessoa saltaria em sobressalto, que se agitaria e se indignaria com ele por esse comportamento bizarro. As pessoas não gostam de excentricidades. Só para as estrelas lá em Hollywood ou para a Ana Maria Braga. Taxista, no escuro, pensando, não dá. Ninguém chegaria de surpresa acabou por pensar, a diarista vinha só às quintas, e pela forma como ela limpa nem se daria conta se ele estivesse ali, estático de morto ou estático de atormentado.
Porque lhe tinha parecido tão estranho que aquele moço, visivelmente perturbado em sua falta de sono, lhe dissesse que não “pegava” com ele ser taxista?! Acaso “pegar” era coisa que lhe interessasse?! Acaso um jovenzinho intoxicado em café Pilão forte saberia o suficiente das coisas da vida como para se lançar em comentários alheios?
A resposta retornava a mesma…algo de uma verdade tinha sido dito. Uma verdade do afecto, inesperado, gratuito, improvável entre um passageiro e seu condutor.
E essa verdade encontrara-o, por mais cliché que pareça, encontrara-o nu.
Haveria verdade nessa verdade?
Pode-se saber sobre a natureza do outro, assim, num piscar de quilómetros?
Era difícil pensar com um carrossel de músicas antigas latejando os neurônios, aquelas músicas, porque raio se apresentavam agora, ali?
Pensou ver a novela. Malhação? Já passara da hora. Mesmo sem ele, essa tarde conseguiriam visualização recorde. Algo que lhe esvaziasse a cabeça. Que a silenciasse.
Preciso, acendeu a luz, a música e olhou a geladeira.
Não…
Era tema de palavras.
Apagou a música, acendeu outra luz.
Pegou num livro, não lido. Abriu.
(…)para levar uma vida que, por ser destituída de esperança, tornava-se também uma vida sem qualquer espécie de ressentimento.”*
As pombinhas da catrina voaram e a frase ficou ali repetindo-se.

* O primeiro Homem. Albert Camus

Marco António II

Ajeitada a camisa, o cabelo, o pelo que fugia rebelde por entre o botão da camisa, ele saiu, tilintando chave, assobiando como filme  a preto e branco, ligou o carro, calibrou o ar condicionado e saiu.

O primeiro cliente era a clássica mãe desesperada: dois filhos, vinte mochilas, o atraso que seria imperdoável hoje, hoje viria seguramente uma notinha para casa…A viagem começou agitada, a criançada falando alto a mãe segurando o choro com as palavras, as mochilas indo de cá para lá. Ele colocou Mozart. A criançada acalmava sempre com o Mozart. Em menos de cinco minutos o silencio se instalara, a mãe abrira finalmente os olhos, tocou-lhe o ombro: obrigada.
O segundo cliente era bem diferente, farialimastyle, executivo, alto, duro. Reclamou que a interpretação do pianista era brega, recomendou outra e saiu bem na frente de uma conhecida casa de massagens.
O terceiro era com certeza estudante, as olheiras, a barba por fazer que dizia baixinho não não é por moda, a mochila rasgada carregada como a cruz. Pediu para atravessar a cidade, chegava tarde ao exame. Lizst quebrou-o. Olhando pela janela, sendo olhado pelo retrovisor. Quando chegou era um farrapo, sem força para recolher a mochila, o saber, o olhar.
Ele ofereceu a corrida. A supresa deu-lhe uma força qualquer…seria um acredito em si velado?
Ele dirigiu de regresso, odiava campus universitários.
O moço chamou-o pelo retrovisor esbracejando.
Marcha a ré.
Sabe você não devia ser taxista.
Ficou embasbacado.
Nunca tinha pensado que havia opção.
Era meio dia mas regressou a casa.
Desajeitou a camisa, ignorou a madeixa rebelde, o pelo preso no botão e sentou-se na poltrona coçada em silêncio.

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