Luísa Ivone

Ler para saber dos outros, era como ler para saber dela mesma. Uma trivialidade de raciocínio, ainda assim, tinha para ela o lugar de um segredo. Claro que não era a sua única fonte, havia outras. Uma delas era um amigo. Um amigo mais do tipo voyeur que do tipo curioso. Um pardal amarelo que…

semestre

ai ai que o semestre nos deixa num corre e corre faz sol faz frio veste despe a caminho de algo segunda já é dia de férias mentira de sempre sexta chega a despedida e sábado um sem fim de possibilidades

Luísa Ivone

Luísa Ivone. Filha de Aparecida Ivone. Irmã de Ligia Ivone. Ivone era nome de família sem o ser. Eram filhas de Ivo. E o Ivo não existia. Luísa Ivone gostava de ler. Novelas bestseller. Se vendiam assim, só podiam ser boas, estava claro, dizia ela no cabeleireiro, no mercado, fazendo a unha ou conversando no…

Lição de casa tentativa 2- Crime por descascar

Cinco e meia da manhã mais coisa menos coisa. Primeiro movimento de fim de noite, a procura de máscara para me esconder do sol que entra sem cerimónias. Nunca poderei entender porque as persianas aqui são tão descaradamente incapazes, sério, porque por persianas que só escondem meio raio de sol e não todo o raio…

lição de casa

Este texto é um exercício para o curso Recursos da escrita criativa, dado por Noemi Jaffe na Casa do saber. Noemi pediu que fosse sobre o amanhecer, incluindo uma digressão. A digressão partindo de uma citação filosófica. Como só consigo pensar no livro do Primeiro Homem do Camus, aqui vai o texto inspirado nele.   As noites…

Filó II

Então, ontem dia que dormi com os pés ao léu, foi um dia fora o comum, diria até que um pouco louco, se não acreditasse tanto como acredito na ideia absolutamente perfeita que eu tive… Para vos contar esta ideia, a vocês interlocutores confiáveis, mais confiáveis que padre ou psicanalista (será que um psicanalista se…

Filó I

Os meus pés à hora de ir dormir: o termómetro do meu humor. Quando era criança dormia com meias. Meias, soquetes, peúgas: nunca soube qual era a denominação apropriada para aquele bocadinho de algodão que, preferentemente com bonecos, forrava a extremidade menos importante do meu corpo. Importantes eram as mãos que desenhavam, apanhavam um colega…

Marco António III

Ali ficou vendo a luz mudar. Primeiro acariciara os tacos de madeira da entrada da cozinha, depois lentamente como numa valsa desconhecida foi-se deslocando, graciosa, o bar que era de sua avó portuguesa, a livraria magrinha magrinha mas que exibia orgulhosa os clássicos em edições de bolso, a mesa de jantar com suas frutas de…

Marco António II

Ajeitada a camisa, o cabelo, o pelo que fugia rebelde por entre o botão da camisa, ele saiu, tilintando chave, assobiando como filme  a preto e branco, ligou o carro, calibrou o ar condicionado e saiu. O primeiro cliente era a clássica mãe desesperada: dois filhos, vinte mochilas, o atraso que seria imperdoável hoje, hoje…

Marco António

Quem olhasse para ele, todas as manhãs frente ao espelho gasto, compondo sua camisa, seu colarinho, seus punhos, quem o visse sempre ali às 6.49 de cada dia, chovendo ou soleando, com frio ou calor, pensaria que sim, que o homem é mesmo uma criatura de hábitos. Ele diria que não, que é uma questão…