Marco António

Quem olhasse para ele, todas as manhãs frente ao espelho gasto, compondo sua camisa, seu colarinho, seus punhos, quem o visse sempre ali às 6.49 de cada dia, chovendo ou soleando, com frio ou calor, pensaria que sim, que o homem é mesmo uma criatura de hábitos.

Ele diria que não, que é uma questão de disciplina. Ele não precisa de se ajeitar nesse horário, daquele jeito, dia após dia, é logística pura e dura.
Ele em geral detestava qualquer redução dessa ordem: o homem é um animal de hábitos,  o passarinho que acorda cedo apanha a minhoca e por aí fora…
O estranho é que olhando para ele, qualquer um sentiria que estava diante um estereotipo.
Eu poderia dizer-vos: Sabe aquela clássico taxista, ligeiramente pelado mas com patilhas para compensar? Sabe aquele típico taxista de brinco de diamante na orelha, não aquele de verdade, mas o que se vendia lá nos oitenta às mocinhas…um cubo de plástico barato bem cheio de brilho para ser mais epicentro do olhar que o deus me livre, sabe qual? E todos vocês já o imaginariam tal e qual o podem ver. Camisa de riscas em cores fortes, aberta mostrando o peito farfalhudo, e ocasionalmente o palito que dá o toque ibero-italiano que termina de demonstrar-nos que este homem se chamará Silva, Peres, Lopes com s ou com z. Pode ser que seja italiano…hum…acho que não. Seu estilo é mais de beira mar, um taxista de Benidorm, Albufeira, algo assim entre o autentico e o para turista ver.
Enfim, todas as manhãs 6.49 concertava sua camisa, 6.51 tomava o sei café de filtro, mordia a sua torrada de pão italiano besuntada de queijo creme comprado por atacado e saía, tilintava o seu chaveiro na rua ainda deserta, assobiava como se estivesse num filme a preto e branco.
Chave na fechadura do carro e vamos procurar o primeiro cliente. Assim ia a sua vida. Toda típica, toda rutinária, toda de estereotipozinho.
Excepto numa questão.
Ele gostava mesmo era de música clássica. E opera, ele disfrutava muito da sua opera.
Mozart, Beethoven, Liszt, Händel, Bach até coisas mais recentes como Rufus Wainwright.
Cada passageiro abria a porta, olhava para aquela personagem que educadamente descia o volume para soltar um informal cumprimento e sorria pensando que tinha diante si o esperado, o confiável, embora provocando uma certa antipatia…
Quando ele subia o volume o silêncio instaurava-se, caía pesado como cortina de veludo.
Que dizer quando o óbvio nos surpreende?
Ele pensava que era a música operando sua magia nos ignorantes, sentia-se um profeta do passado, um che guevara guerilhando contra o funk e satisfeito oferecia ao retrovisor um sorriso como uma marcha triunfal.

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