Filó I

Os meus pés à hora de ir dormir: o termómetro do meu humor.

Quando era criança dormia com meias. Meias, soquetes, peúgas: nunca soube qual era a denominação apropriada para aquele bocadinho de algodão que, preferentemente com bonecos, forrava a extremidade menos importante do meu corpo. Importantes eram as mãos que desenhavam, apanhavam um colega que corria, as mãos que tapavam os olhos enquanto contávamos até dez. Os pés foram uma descoberta posterior, por acidente.

Um dia, a dona Alice, porteira de reputação intermédia, apareceu em casa às 21.30. Saber como estamos, como encontrámos a casa, como estão as meninas, bla bla bla. Presenciou assim, por casualidade, a nossa ida para a cama. Quando temos oito anos, achamos que todos os meninos e meninas vão dormir igual que nós: pijama do snoppy ou da galinha pintadinha, a marca da geração e do género varia mas fora isso: homogeneidade.

Contudo, dona Alice ficou embasbacada de espanto, de terror, de profunda indignação: dormíamos de meias (soquetes, peúgas). No mundo da dona Alice, note-se que o d de dona é em letra minúscula para melhor caracterizar a personagem, todo o mundo dorme sem meias, porque as meias, vejam bem, mesmo quando acabamos de tomar banho e as calçamos lavadinhas: são sujas.

Ponto final parágrafo, as meias são sujas. Também os soquetes e as peúgas.

Aquele evento mudou a minha percepção das extremidades, os pés eram assunto nacional, e as meias assunto racional, tiravam-se antes de dormir.

O inverno cobrava o seu preço, no verão fazia até sentido.

Um dia por acaso dei por mim a recordar esta história, e decidi que se foda a dona Alice e as suas teorias bizarras (relembrei o caso dos smurfs desaparecidos em uma das visitas de seus netinhos) e calcei meias, soquetes e peúgas de novo.

Para que vos estou então a falar de termómetros? Indignados vocês foram lentamente pensando se se dorme com ou sem meias, certo?

Hoje em dia eu durmo com meias, quase sempre, verão incluído.

Cada tanto, acontece de me deitar e perceber que não consigo manter as meias…uma incapacidade de me abstrair desse tecido sobre os dedos dos pés, os calcanhares, o incómodo do elástico sobre o tornozelo…as peúgas falam-me, criticam-me, chamam-me…ponho os pés de lado, para cima…eles rebeldes resistem e formigam, ou doem um pouco fazendo o dormir uma tarefa impossível.

Nesses dias, aprendi a aceita-lo, eu tiro as meias.

E nesse dormir de pés ao léu eu vejo uma rebeldia contra o quotidiano, uma liberação filosófica, uma espécie de felicidade.

Ontem eu tirei as meias.

Perguntam vocês porquê…

Algo aconteceu de facto, só que não vos posso contar hoje…tenho que pôr a roupa a lavar.

Já volto…

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