lição de casa

Este texto é um exercício para o curso Recursos da escrita criativa, dado por Noemi Jaffe na Casa do saber. Noemi pediu que fosse sobre o amanhecer, incluindo uma digressão. A digressão partindo de uma citação filosófica. Como só consigo pensar no livro do Primeiro Homem do Camus, aqui vai o texto inspirado nele.

 

As noites estendem os seus braços até ao amanhecer, envolvem-no rápidas e nele se dissipam como nuvens em dias de calor.

Aqui o amanhecer é rápido, um abraço como um encontrão entre dois seres que estão familiarizados com o corpo um do outro, há um susto, um som, um sopapo, um embate. Mas esse embate desenvolve-se imediatamente numa toque de reconhecimento, aqui está o braço e abraço, o peito e o afago, a face e a carícia.

Lembro-me desses encontros apenas com meus filhos, com meu irmão. A minha mãe, mesmo idosa, era uma muralha de vidro, se chocavas com ela, corrias o risco de te quebrar tu em mil fragmentos que te poderiam, em maior ou menor grau, perfurar como palavras afiadas.

Sempre soube que as palavras eram como instrumentos, jamais soube usá-las.

O meu mais pequeno sim, desde sempre soube que ele era um artesão. De algo desconhecido. Quando chocávamos no escuro da casa vazia, Jaques encolhia-se tímido e sempre me dizia algo doce: um desculpa mamã proferido como um beijo na testa, ou por aqui mamã sussurrado como esse perdão divino que tantos procuram.

Isso do encontrão, é como a história essa que ele deixou aqui…dos porcos espinhos que tem frio e se juntam, mas depois se ferem e se afastam…algo assim.Quem escreveu esse livro acharia que eu vivo na perfeição, como era que dizia…”Assim a verdadeira e profunda paz de coração e a perfeita tranquilidade do espírito, esses bem supremos sobre a terra depois da saúde, não se encontram senão na solidão e para que sejam permanentes, na incomunicação absoluta.”

O senhor que escreveu isso, antigo parece, alemão disse o Pierre, não é de estranhar…sabia algumas coisas, parece que influenciou uns que influenciaram o Jacques. Ele sim gostaria destes amanheceres, dizia sempre que lá em França não há amanheceres como estes.

Estes são como um fogo que arde, que chega de peito nu, enrolado como véu de mulher mas que se recusa a ser mortalha, despe-se para ver o dia que chega, sempre como se não houvesse memória do que passou. Aqui neste país a memória é como o amanhecer…

Sempre gostei de me sentar aqui, nesta cadeira que minha tia ofereceu, olhar a rua, as pessoas passando distraídas de si, incapazes de imaginar que são observadas. Não lembro como era antes quando eles eram pequenos, quando eu era pequena, parece que olhando-as me esquecia de mim. Deve ser como o que dizia o alemão, o que eu sentia na época, “Em tese geral só consigo mesmo se pode estar em perfeito uníssono; não se pode estar assim com um amigo, nem com a mulher amada, porque as diferenças da individualidade e do caracter produzem sempre uma dissonância, por mais pequena que seja.”. Devia sentir algo assim, já não recordo.

Cada vez que Pierre me lê esse livro, essa noite fico aqui, sentada para ver a noite abraçar o dia. Procurando essa paz de espirito de que ele fala.

Leio tudo o que Jacques deixou aqui por engano, também os livros que ele ofereceu ao irmão, ou a Pierre. Mas nunca a ele. Nunca leio Jacques. Nunca leio para falar a verdade, é Pierre quem aos domingos me traz hummus da cidade, toma um café e me lê o que sobrou do meu filho.

O amor de uma mãe é como outros amanheceres, talvez como esses da França que ele contava, mas certamente não como os da Alemanha. É lento e eterno. Como nesse encontro casual, o tempo em que reconhecemos, mesmo no escuro, as palavras não ditas, as lágrimas não choradas, tudo devagar, já sem o susto do embate, sem a estranheza do desencontro.

É por aqui mamã, escuto ainda todos os anoiteceres, e todas as manhãs recordo que não o escutarei jamais, nesta solidão, senhor alemão, não há nada de perfeito.

  • Inspirado no Primeiro Homem de Albert Camus
  • * Citação de Schopenhauer

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