Lição de casa tentativa 2- Crime por descascar

Cinco e meia da manhã mais coisa menos coisa. Primeiro movimento de fim de noite, a procura de máscara para me esconder do sol que entra sem cerimónias. Nunca poderei entender porque as persianas aqui são tão descaradamente incapazes, sério, porque por persianas que só escondem meio raio de sol e não todo o raio de sol…raio de sol, mesmo. Todo o bairro é assim, com estas persianas a meio colocar, a meio fechar.

Segundo movimento do despertar, o banheiro, porque a estas alturas a minha bexiga está sinalizando algo.  A maior parte das vezes não está cheia, talvez tenha vocação teatral, e geme, esbraceja, grita, contorce-se até que cansado de drama, me levanto para a atender. O fiozinho miserável com que inaugura o dia irrita-me. Depois disso considero muito difícil voltar a dormir.

Levanto-me oficialmente, com dificuldade, sempre acreditando que com o café a coisa começa a compor.

Hoje então é domingo. E os domingos são dia do descanso do trabalhador. Trabalhador já não sou, agora sou velho a full time, mas ficou-me essa alegria domingueira.

Como é domingo, ela não se deve importar que eu faça café na cafeteira italiana, com o café bom que a Alice mandou desde a Colombia.

Onde estava o café bom? Ah sim deve estar na geladeira. Cafeteira italiana na prateleira mais alta, para desanimar o uso, esta minha mulher, poupada graças a deus, muito poupada. Como eu gosto das cafeteiras italianas, baças e gastas, oferencendo-se pesadas à mão, com aquela sujidadezinha que aprendi lá na força que não devemos lavar com detergente. O cheiro do café que tenho que tirar com colher de sopa, o clic clic do fogo, a espera. Amanhecer finalmente começa a dar uma alegria.

Vou abrir as cortinas, já entra um solzinho. Irei até à padaria, ou faço torradas? Padaria abre às 8? Ainda falta. Melhor torradas. Ah ela já não compra pão a mais, que bobagem, fazia mesmo falta para agora. Como deve ter sofrido um homem para ter necessidade se ser bobo…de onde era isso? “ Nenhuma leitura conheço que tanto despedace o coração como a de Shakespeare: como deve ter sofrido um homem para assim ter necessidade

de ser bobo! “ E que bobeiras nos traz ser velho, torradas e café são a alegria do dia. Nem sei como é isto da memória, como era mesmo que dizia a Alice…algo sobre lembrar bem coisas de antes. Ah sim, era isso, que era comum lembrar mais coisas de antes. Estas frases que me vem a mente, devo ter lido em algum lugar…era um livro branco e verde, com letras tipo antigas. Nome diferente.

A cidade ainda dorme, os que saem à noite e se acabam de deitar, os que ficaram de sobremesa conversando ainda fazem ronha na cama. As crianças ainda descansam as pernas, cansadas de tanta brincadeira. “Compreender-se-á o Hamlet? “   Exacto falava de Hamlet o tal do livro, mas não era bem sobre isso, Não é a dúvida,

mas a certeza que enlouquece… Mas para assim sentir importa ser profundo,

abismo, filósofo… Era isso, eu lia nessa época, devia ter os meus quarenta, foi quando mataram aquele moço numa manhã, isso era bem de manhã, umas cinco, quando eles ligaram: Faustino tens que vir, mataram a um lá perto da Paulista, parece coisa feia!

Reclamei tanto, nessa época os meninos iam passar o fim de semana a casa dos avós, então nós aproveitávamos para o combo comer fora, cinema, tomar algo. Sábado era a noite da glória, e o domingo era para dormir. Fui lá, café do de filtro na mão, dirigindo sem cinto, coisas bem da época. Quando cheguei percebi o que me tinham dito…melhor nem lembrar o estado do moço. Deu-me a fraqueza, nesse momento, lembro-me disso, e só me conseguiram amendoins que tinham ficado na mesa do bar. Deu trabalho esse caso. Entrevistas, conjecturas, muitas conversas e muita noite sem dormir. Achavam lá na força que tinha sido o namorado, uma coisa de briga de enamorados, o corpo assim despedaçado, isso era crime passionalósexual.

Demorei muitos anos a perceber que não. Era coisa de heranças. O pai mandou-o matar. Ninguém podia pensar nisso…Todos temos medo na presença da verdade…”* era isso, a verdade era tão crua que não a podíamos enxergar.

Será que com o café ia bem amendoins? Ai o café!

*Nietzsche Ecce Homo

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