Madrid

Atendia desde sempre ali. Duas salas divididas por três degraus de escada, colocados só para atrapalhar os pedidos, fazia questão de dizer a quem entrava pela porta.

Que querem?

E os clientes ainda escolhendo a mesa. Ia-se refonfunhando em voz baixa, visivelmente chateado com tais indecisões. Voltava. Chamem-me quando se decidirem!  Ia-se sem deixar cardápio, nem sugestão nem sorriso.

Chamado a medo, revirava os olhos e vinha arrastando os pés. Croquetes, batata brava, cervejinha. Olhava em volta, revirando os óculos. Debruçava-se acotovelando a mesa. Olhem amigos, peçam os calamares e a cerveja a copo, fica mais económico e é mais gostoso.

Levantava-se com cara de enfado e ia-se, sem levar a perplexidade e o agradecimento.

(ex. escrevedeira. Alguém que parece uma coisa e faz outra)

Rosa

Chegara finalmente para identificar o corpo. Sobrinha eleita. A que vivia mais perto, e a tia privilegiava essas practicidades.

O médico destapou a tia, juraria que nos filmes era uma bolsa plástica rígida, aqui um atoalhado branco. Assim que viu a testa assentiu, o bico de viuva, o sinal sobre a sobrancelha, era ela. Era a tia Luísa.

Assine então no final depois de ler o documento, estendeu a caneta azul guardada na bata. Pediu que a esperara.

Abriu a bolsa repleta de kleenex, uma carteira enorme, o bilhete único solto sobre as lágrimas. Dê-me um segundo…Pegou um estojo, infantil, desses de loja chinesa e catou uma caneta rosada. O médico viajou quando viu a Betty Boop. Há anos que não se encontrava com essa bonequinha dançante.

Destapou a tampa. O bico da caneta deslizou sobre a folha, palavra por palavra. Sublinhou o nome da tia e a idade.

Ele ali, de caneta estendida, a tia vestida de mesa pic-nic e ela com a caneta viajando até ao fim da página.

Está certo!

Aceitou a caneta que o médico petrificado lhe estendia e assinou.

(Exercício da escrevedeira, manias estranhas em momentos insólitos)

inverno

Novo conto para a escrevedeira.

Em processo.

 

Bom dia! Que seção você vai?

Não sei, venho tratar de umas licenças que tem que enquadrar, cê tá entendendo?Enquadrar lá na banca, pós moços da prefeitura saber que tenho autorização de venda de minhas mercadorias.

Que é que você vende?

Pandreivi, cêdê, capinha pa celular, capinha pó tablet, tem também pulseirinha muito chique, anel, brinco vistoso, carteirinha de pele com pedraria…

Ansiosa a atendente clicou no botão com suas unhas. Neide viu como estavam bonitas, longas com desenhos e brilhantes.

Tem também tatuagem de unha, como essa aí, ocê tá entendendo?Onde comprou essa daí? Tá bonita demais.

A moça engoliu a pressa e mostrou a unha, era raro encontrar uma apreciadora dessa arte.

Cê sabia que tem japonês até que é artista de unha?Só de unha, ocê tá entendendo?

Não sabia, ficou encantada. Neide sorriu, aceitou o tiquete que as unhas adornadas lhe estendiam e subiu. Segundo andar, senha trinta e um. Foi de escada, não era mulher de atalhos, gostava de sentir a força das pernas, os pés em destaque, o calcanhar, o arco do pé, os dedos empurrando e soltando a sandália como uma garra. O sorriso dançava ao ritmo da ancas. A sala estava repleta, sentou-se.

Ana Maria II

Quando Mariana cumpriu dezoito vieram para a cidade. Ela tinha quinze. Deixara os amigos, a casa, a avó e um amor escondido às claras.

Luís também era loiro, de pele sardenta e olho verde. Ela lhe escrevera um bilhete com um poema, um português era o autor, alguém lhe dissera que seus olhos eram como peixes verdes. Os de Luís também. Ela não se cansava de virar aquário. Era um amor de verdade aquele. Entre duas crianças que descobrem um corpo adulto. Duas crianças recordando, ou inventando talvez, o amor que suas mães não lhes puderam dar.

Não faziam nada de extraordinário. Iam no cinema e apertavam as mãos, na lanchonete e juntavam os pés encaixados para não perderem o chão. Se visitavam no intervalo da escola, trocavam de merenda às vezes. Algumas tardes de chuva abrigavam-se no casebre do avô de Luís. Aí, húmidos de calor, os corpos se demoravam em descobertas. Tudo era novo e tinha promessa de antigo. Ana Maria sabia que algum dia recordariam seus corpos assim. O dia em que eles fossem já dobras e vincos, eles saberiam ler no corpo do outro a marca, um filho, outro filho, um escaldão de sol ou de panela, um acidente de trabalho ou de carro, as perdas e as conquistas em sobras que se somavam e se subtraiam.

Eram o que sentiam que fazia toda a diferença.

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