Namorar

Vem amigo, vamos ali namorar a minha amiga.

Filho, namorar é coisa de dois, de um em um, não vão namorar os dois a mesma.

Vão, vão.

O que é namorar, filho?

É ir, ir lá, namorar.

Ah é? E que mais?

É segredo.

 

Namorar: 

Na- morar: ir e estabelecer residência.

Morar-na: ir e estabelecer raiz.

Narra-mo: Descobrir as ficções e fazer história.

Morra-na: Ter morriña, galego para saudade.

Desaparecer no outro.

Abdicar da vida por.

Dizer tanta verdade que aqui morra se mentir.

Dar morritos, vulgus picos, mais vulgos xoxos.

 

Segredo: véu, mistério. Ser sem dizer.

 

 

 

correr e escrever

Parece que a Joyce Carol Oates, ela mesma, e não só a sua versão Pelé, diz que que correr e escrever são para ela, um gesto contínuo.

Estes dias comentaram-me algo similar do Murakami, corre e escreve e escreve e corre.

Pensando nesses mistérios do escrever, relembro a Duras, cuja musa era o wiske, que é como eu chamo aos bourbons e afins.

Pergunto-me por que ironia do destino, me acontece, de escrever melhor comendo bombons.  Desenganem-se os que pensem que é só pelo açúcar. Comendo gelados não me sai nem uma linha, gomas nem pensar. Há algo de mágico na forma acabada do bombom, nos seus desenhinhos que se oferecem à língua, no mistério do que contém, e enfim, porquê negar…aquele travo transgressor.

Temo que a minha gula me reserve um futuro nas artes menores, ou nas calças largas.

Segunda-feira

Compre o leite, o pão, o quilo de tomate, o peixe e os coentros.

Perdão, compre o pão. Antes que nada, ou faça o pão, depende de você. Mas que tenha casca, duro, que o miolo seja escasso sem que o pão seja oco. Que o pão seja denso, com muita crosta, resistente, que endureça. Um pão que você, depois de hoje, não possa morder, mesmo hoje, se tem dente fraco, não se atreva. Pão à antiga, que se mastiga com os dentes todos, com a boca aberta. Pão que você tem que chupar um pouco, antes de o apresentar aos caninos, chupá-lo como criança sem dente. Compre o pão. Reserve. Deixe de parte ao ar livre. Livre mas tapado. Não pode pegar bactéria, nem fungo, nem formiga, nem ar. Não feche, não aperte, não estrangule. Deixe o pão com casca, com um pouco de ar, guardado, suspenso. Tem que amadurecer.

Esqueça o pão.

Compre o leite, três litros de leite, de preferencia meio gordo. Magro fica sem gosto, gordo faz arroz doce, ou fatias douradas, com esse pão até daria. Pense se quer fazer fatias douradas. Se não vai dar, se quer salgado e não doce, esqueça as fatias, esqueça o pão, esqueça o leite gordo. Compre o leite, guarde o leite. Atenção não abra. Sem abrir guarde na despensa, não precisa de geladeira.

Compre o tomate. Tomate maduro que chegue. Coloque o dedo contra a superfície do tomate, lisa, vermelha. Aperte. Aperte como um botão, chame apenas uma vez o tomate, se o tomate repetir o som, esqueça, já foi, esse tomate não serve. Toque outro tomate, liso, vermelho, pressão. Se o dedo regressa, protestando, suave mas firme, compre. Desse, compre um quilo.

Antes de começar, compre o coentro. Do dia, recolhido esse dia, comprado no dia. Só coentro, se for cheiro verde, esqueça, procure orgânico….

aranhas

Reparei nisso uma manhã destas. Algumas aranhas são peludas. Peludas e morenas. Depois de ver isso, foi difícil deixar de ver. Isso, claro. Não sei o que há nisso de tão capturante, na aranha. Capturante e repulsivo. Voltei a gostar das normais, magras e tímidas que não comem moscas nem mosquitos mas são esperançosas. Como as joaninhas. Eu não sou boa com as plantas, não tenho pulgões, mas espero sempre encontrar uma joaninha. Ah, sim, a esperançosa sou eu, de joaninhas. Porque as joaninhas e as abelhas temem pela sua continuidade, como nós, e como as aranhas depiladas que sobem pelos plátanos das nossas cidades. Aquelas peludas, devem ser mais resistentes. Como as baratas. Como um polvo. Os polvos além dos três corações, são muito inteligentes. Serão muito humanos? Para ser humano, é preciso ter pelo menos um coração, alguma inteligência e algum pêlo. O polvo não tem pêlo, mas pode sempre se apaixonar pela aranha certa. Esta semana vi um polvo desenroscar-se de um frasco e fugir. Foi um pouco como os pêlos das aranhas. Se o polvo foge do frasco, talvez fuja ao fim do amor. Isso seria mesmo pouco humano, mas muito inteligente. Não sei porquê, desde que as aranhas são peludas, e os polvos são filhos de houdini que há coisas mesmos estranhas. Como uma loja que vi esta semana, depois dos pelos e dos frascos, que dizia: ainda aceitamos escudos. Em notas. Escudos de moedas, não. Só notas. Porquê alguém guardaria escudos de sobra? Só se ganharam a lotaria e morreram e foram comidos por gatos e descobertos por uma senhora das imobiliárias a quem caiu o tecto podre em cima. É um filme. La comunidad. Muito bom.  Termina com toda a gente a beber chupitos. No entretanto, os estranhos são os vizinhos, e a isso, já estamos todos habituados, tão habituados. Para recuperar o espanto, devíamos ter tentáculos, guinchar tinta preta. Ou ser muito peludos. Fora laser, fora fio egípcio. Ou ter três corações. Um clichê, mas é melhor que pêlo nenhum.

Dia de chuva

Era daqueles amores a meias. E pedia meias. Cada tanto o mindinho adormecia, se o sacudissem, podia cair. Uma parte do corpo era de gelo, se o gelo ficasse ali, fazia peso e o corpo não queria responsabilidades. Trocavam-se meias, com sorte. Sem sorte haviam as casas de banho, ecológicas em sopros frios, desafiavam a eternidade. Era melhor que nada. O cabelo nas toalhas, algodão ou papel reciclado. A maquiagem borrada. Eram dias tristes. Hoje está mesmo um dia triste. E as cabeças pingavam, o rímel escorria, as pernas abertas fugindo das calças, o chão sujo. Mas faz falta. Faz, faz. Graças a Deus. Estávamos mesmo a precisar. Silêncio. Mas é chato. Pois é, pois é. O trânsito. Sem possibilidades de espreitar, asas afiadas cortando as gotas, luzes de presença, os olhos enrugados e aquela vontade de ouriço cacheiro. Contacto visual, ao menos! Para bufar. O bufo é som que se escuta sem ouvido. Buff, hã, pah. Qualquer um lê nos lábios. Ahhh. Também é fácil de ler.

O único dia em que o melhor do mundo é ser dona de casa. Desde que se tenha máquina de secar. Ou ser muito organizada, ou o, que hoje entre bufos e ahs temos donos de casa. O nome na escritura coincide com quem põe a máquina a lavar. Eles e elas. Alguns. Outros bufam.

Início do último conto escrevedeiro- Teaser text :)

Pronto! Pronto! Amor, que se passa? O sonho. Outra vez? Outra vez.

Põe cara de maçada, apaga a luz e suspira. Maçada, de maça encerada, envenenada, maçaneta quebrada, maçada de peixe sem esse, robalo ou tamboril, molho de tomate, azia. Maçada é palavra de velha. No escuro, o coração acurralado, planeia fuga. Sabe o que aí vem. Não sinto as pernas. No colchão escavaram profundidade, suponho que pesam. Ele já ressona. Se fechar os olhos com muita força, talvez o sonho desapareça, as pernas voltem, e o tamboril em cubos apague o gosto do pimento vermelho.

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