Palavras que mudam tudo Exercício.

Ele é do Rio e eu sou daqui mesmo. O que deu encontros fortes e raros, exigiam tantos planos que a preguiça venceu. Um dia ele ligou de novo, tinha saudades, vinha a São Paulo, vamos combinar? Terça às 15h. Fiquei nervosa, expectante, precisava preencher o tempo até lá. Diria que sim a todos os planos. Aniversário chato da amiga de infância? Sim! Ir com o amigo feio que me paquerava? Sim! Aceitar distribuir vinho por entre os convidados? Sim! Ir pedir saca-rolhas à casa da vizinha porque quebrei aquele? Sim, desculpa. Empresta? Passe, passe. Sim, obrigada. Quer levar e trazer depois? O namorado dela  gaguejando. Quero sim, até terça.

Exercício escrevedeiro, primeiro gole:

  

  A doutora Stahlbaum vai já recebê-lo, e foi logo abrindo a porta. Sou o primeiro do dia. Não há atraso, o que consigo ver da sala é pura arrumação: revistas e jornais sobre a mesa, um poster enorme, negro, antigo com letras castanhas. Estende-me a mão e convida-me a sentar, Clara é tal qual me descreveu o meu tio, uma menina com essa beleza das nossas classes altas, a que o excesso de proteínas deu bons cabelos, boas peles, boas alturas. Mas atravessada por algo inesperado. À Clara Stahlbaum, dizia ele,  fizeram-na num país de encantar, com pitadas de floresta negra.

   Diga-me, você é o sobrinho do Drosslmeyer?

   Sou, Ernest, muito gosto.

   E o que o trás por cá?

   Quebrei um dente.

   Não, cá pela cidade.

   Ah, o meu tio deixou-me a carpintaria.

   Dente partido, então. Abre a garrafa de cerveja com a boca?

Ri-se com macieza.

  Tentava descascar uma noz.

Olha-me, atenta. E eu que pensava que abrir caricas com a boca era idiota…A cadeira é antiga, como de barbeiro, mas adaptada. Os braços e a pia totalmente diferentes da velha estrutura metálica. Os dedos finos passeiam pela minha boca, as luvas cheiram a pó talco e são tão finas que sinto as impressões digitais sobre os veios do dente.

Livros

Escrever é ler. Ler também é escrever. Não decepciono ninguém se me articular, sem palavras. Onde se suspendem os comentários, nem sempre faltam sentidos. Perguntas. Para ler com uma taça de chá, e um alguidar velho. Talvez o vómito. Lenços. Talvez as lágrimas.

Talvez o humor seja a única arma da hospitalidade.

De ser hospedeiro. Para não ir ao hospital.

“Um cavalo entra num bar” de David Grossman.

Não sei como descrever. Mas parece-me que a literatura é este livro.

 

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