Exercício na Escrevedeira. Um objecto a que tenhamos afecto, mas não usemos mais. Calhou-me a Flávia.

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Daquela vez eles foram na praia. Os dois, Flávia Castro Azevedo, escritora mais conhecida como Patrícia Raffaeli e o marido, Bruno. Nessa época, Raffaeli era ruiva, daquele ruivo vermelho de louro que passa Henna, trabalhava ainda na fábrica e brincava de ser séria.

Praia, perguntou Bruno. Praia, ela respondeu. Amava os grãos de areia escorregando pelos dedos dos pés. Os seus dedos dos pés sempre foram que nem segredo de estado, muito separados uns dos outros e invulgarmente gordinhos. Tudo bem, se ela não vivesse no Rio, a trezentos metros da praia. Há quem diga que foi a seu pedido que as Havaianas começaram a produzir alpargatas.

E que praia, ela perguntou, não queria ser ela a responder.Caribe, ele disse. Ah seu lá cara. Aquele impasse. Queria algo diferente, ele arriscou. Mas praia? Mas praia.

Flá pegou no globo do mundo que comprara na papelaria do senhor Min, falecido no ano anterior. Eu giro e você aponta. Ok, ele disse. Fecha os olhos, vamo! Logo o dedo foi parar na Croácia. Era diferente que chegue, Flávia tinha ouvido que eles falavam muito bem p português graças as novelas da globo. Ah cara, ela disse, vamos. E foram. Castro comprou até uns chinelos e deixou em casa as alpargatas. O globo tinha luz led mas faltara wikipédia. Dubrovnik é cheio de pedras que esperam pacientes a erosão. O mar gelado, azul. Faz bem para a circulação, ela disse, rindo. Ele riu claro, sabia como é Flávia. Nadaram, riram, sentiram aquela dorzinho de ossos que as águas europeias promovem como cartão postal. Decidiram voltar cedo, a tempo de ver a feirinha de orgânicos no centro da cidade. Molhadas, as pedras agarram os pés gordinho de Raffaeli, aprisionaram o direito como se disse dependesse sua vida de pedras negras, rijas. Demorou para recuperar o pé, mesmo fazendo piada sobre ser como édipo. Sem pé o buraco ficou nu, mas não vazio, entre as rochas uma pulseira: olhos desses tipo grego, berloques prateados, um enorme trevo. Detalhe, as bolinhas eram vermelhas. Raffaeli achou que ali havia gato, ou caso, ou “sei lá cara, um negócio” do destino. Usou a pulseira sempre no pé direito. Foi o fim das alpargatas.

Cansada de vermelho. Azevedo regressou a ser loira, castanha clara, assumiu o pé gordinho. Um pequeno passo para o pé. Vai daí que encontrou um livro com essas bolinhas na capa. Vermelho também. Era a amiga genial. Findo o livro, o nylon rebentou. Raffaeli guardou as peças e decidiu que precisava viver, escrevendo.

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