Cadernos da Flip

Eu se pudesse tinha uma casa.

Se pudesse ter uma casa, a casa teria jardim.

Não demasiado, as plantas morrem nas minhas mãos.

As minhas mãos são pequenas e por isso, talvez, as plantas morram nas minhas mãos.

Eu não tenho uma casa e as plantas morrem nas minhas mãos.

Se eu tivesse uma casa, as plantas morreriam nas minhas mãos?

Ou nos meus pés?

Eu se pudesse tinha uma casa, e nessa casa teria um jardim e muitos quartos, chamaria escritores e ilustradores e artistas promissores para lá viverem, comigo, com o meu marido e o meu filho. Não sei se eles gostariam, por isso os artistas teriam que ser fofinhos e com bom caracter.

Se eu pudesse ter essa casa, não chamaria casa do sol. Mas Coça-te.

Casa Coça-te. Rasca-te, arranha-te, suavezinho, coça, coça, comicha, mordisca, levanta a cútis como quem descasca um barco.

Se eu pudesse, afirmava assim, no nome da casa, certa postura de vida. A vida dá urticária. É sabido.

Nessas casa, as letras que diriam Coça-te seriam em cores diferentes, vermelho, azul, verde, amarelo. Diferentes entre si, entendam, porque as cores são das poucas coisas estáveis neste mundo. As cores e as cócegas.

Nessa casa eu penduraria um conto, que ainda não escrevi mas começaria assim:

Chico Buarque de cueca.

Porque ele é muito mais lindo que o Caetano, e já se escreveu um livro para o Caetano, e começava assim, disseram.

É de uma italiana que se chama Igiaba.

É isso mesmo, é italiana, e fiquemos por aí, guardem suas cócegas por onde vos couber.

Chico Buarque de cueca.

Esse seria um começo como deve de ser.

Mas Chico Buarque tem mais cara é de usar sunga.

Chico Buarque de Sunga.

Nessa casa, se eu pudesse eu tinha uma casa, toda a ordem é fonética.

Cueca não fica bem com Chico.

Sunga fica melhor.

Essa seria uma lei, lá nessa casa, que eu teria, e se chamaria Coça-te, mas ainda não sei que diriam o meu marido e o meu filho, de todos aqueles artistas, de bom caracter, só gente tranquila, ali vivendo, e escrevendo e desenhando, e remendando as dores do mundo, no raspar de suas peles.

Toda a ordem é de som.

Casa Coça-te, desafio sonoro.

Chico Buarque poderia vir, até sem sunga, ou seja, com a cueca por debaixo da roupa, eu não ia complicar a visita dele:

Podes vir Chico.

Lá na casa ninguém ia querer saber de que lado caem as gotas de chuva no rosto escavado do Chico. Lá na casa, que eu teria se pudesse, só se obedece a uma lei.

Há poucas casas, dessas, onde a poesia mora, só coçando, coçando, coçando…

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