Bestiário express

O cão a barata a angústia,

mordiam a mosca, a borboleta, o caracol.

No fundo da lagoa três peixes falavam sobre o absurdo,

o lodo mais puro sabe a sal.

O rato, a cobra, a traça

rezavam canções de encantar:

a asa, a casa, e o terminar.

A um canto ela cerzia duas meias sobre o alguidar.

meias

Não me levantei descalça.  Tinha as meias. As noites de lençol e meia. Enquanto eu dormia, sem frio, sem calor, ardia a minha esperança nas borboletas brancas.

Obedeço só a crendices com poesia: borboletas brancas pairando à minha volta? Sorte, boa notícia. Gato preto caminhando na esquina? Se formos para o mesmo lado é boa sorte!

Dentes de leão raros, um por relva? Desejos por concretizar.

Pode ser, pode ser sim, que algumas dessas crendices as tenha inventado eu. Pela poesia. Não, pela beleza. Ou pela ternura, a mesma que um bom par de meias dá a um pé de fim de verão.

Não me levantei descalça. Tinha as meias. A segunda volta. Os memes, os photoshops, os gritos, os hashitaguis, as rezas, as esperanças.

Há-de-dar-sim.

Para continuar vivendo.

Há-de-dar-sim para acreditar um pouco numa outra crendice minha.

Inventei eu também. Olhe para uma pessoa, qualquer. Cruzou na rua, no metro, viu pela janela. Suponha humanidade. Estabeleça contacto visual e aguarde.

Seria essa a ideia das borboletas?

Rodopie buscando o olhar. Se alguém olhar no seu olho, dentro do cristal húmido, que é o mesmo que estava lá antes, na barriga de sua mãe, crescendo com as unhas, os ossos, o cérebro.

O olho, que já estava lá, na barriga da sua mãe.

O mesmo que alguma mão caridosa puxará para baixo quando chegar o fim de olhar.

A pessoa poderá, ainda assim, defender a tortura, a inferioridade de uns em relação aos outros?

Pode, dirão vocês. Já todos sabemos que pode. Sabemos bem demais.

Enquanto aguarda, vista as meias.

Mesmo que seja início de verão.

Mesmo que esteja num lugar quente.

Pelo sim pelo não vista as meias.

Se puder escreva nelas.

Algo inspirador.

Se o outro olho, fugir do seu olho.

E passar por ali uma borboleta, um dente de leão, um gato preto na esquina caminhando para o mesmo lado…

…Vai olhar o vosso pé.

 

 

 

#elenão

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar numa abelha, numa mosca, um mosquito. Tinham-lhe dito que quando isso acontecia, de entrar um insecto, devia virar o ouvido para a luz e esperar que ele saísse, procurando a luz. Uma metafísica de asas. Girava a cabeça para a janela, e o que rodopiava para dentro da orelha eram os sons habituais. O autocarro tentando parar, a descarga do vizinho, o cachorro do terceiro andar.

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar numa duna, a areia rodopiando para dentro para dentro, escorregando. Comichão. Não se podia fazer, tinham-lhe dito, ainda assim ia o dedo, a unha, a mão inteira se pudesse. Não encontrava nada. Era uma parede lisa. Girava a cabeça para baixo e ouvia os sons habituais. O duche da vizinha, um assobio, o estendal enferrujado.

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar numa palavra, uma ideia, um olhar. Tinham-lhe dito que as palavras moem mas não matam. Girava a cabeça para baixo e dava umas pancadas por cima. Não escorria água, nem palavras. Giravam por dentro do ouvido, e faziam ninho sobre as sobrancelhas. Olhava então para fora e o que via não era habitual.

Era no ouvido. Por dentro da orelha. Fazia-a pensar no passado, o que fora, estava nos livros. Mas depois a biblioteca ardeu. E ardeu o museu. E até os jornais arderam, e as pessoas estavam sozinhas com as abelhas nos ouvidos, por dentro das orelhas, pensando que as palavras não matam.

E era o ódio que moía.

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