araújo

O senhor Araújo. De seu uma pasta, um fato, uma lata de grão.

Uma filha, que escrevera na secretária, que era de madeira e não uma pessoa. A pessoa que era mãe da filha, vestia saias verdes.

Ele era, obviamente do sporting.

O amor ao clube, dava-lhe pele de galinha, e outras mudanças no corpo.

Depois fez-se velho, deu-se conta, deu, mas muito de vez em quando. 

Tinha um sobrinho, ajudou o sobrinho, mas nunca se decidiu a gostar dele. Não soube se o sobrinho o apreciava ou não. Não soube se era apreciável. Era leal, apesar de nunca ter percebido que quando fez a filha, violou a mulher de saia verde.

Ela final até gostava dele. Ainda assim, aquilo tinha sido uma violação.

Araújo era do sporting, mas as suas escovas de dentes, nenhuma era verde. E tinha muitas. Para os dentes, para a língua. Para o pequeno almoço, para o almoço, para o jantar.

Deixa-nos a pensar o que é a vida e se temos uma boa higiene oral.

 

Reflexões sobre o Testamento do Sr. Napumoceno de Araújo, de Germano de Almeida.

estetoscópio

O quarto é branco. Bem branco. Armários, janelas, paredes. Por isso a cama é tão escura, de uma madeira grossa, oriental, colada com força por algum alemão que come muita proteína. Sim quase ao contrário do que costuma ser. A mesa de noite é de madeira também, outra madeira, adocicada e com nome de fruto. Para ler, um candeeiro com cara de estetoscópio. A luz cai na página e cega um pouco, ela as vezes acha que são as palavras. 

É difícil saber ao certo, sobre as palavras apareceram umas asas, de mosca. Pequenina e rápida, dessas de casa de banho, ela pensou. A mosquita, dessas de casa de banho, no quarto voando perto da luz. Vai-se queimar, talvez. Pousou na sombra enquanto ela lia. Voltou para a lâmpada quente quando as palavras sossegaram. Inquietou-se. Fugia à metáfora, a mosquita, e ela dormiu inquieta.

digressões

Os dois gatos, um branco e outro preto, estendidos ao sol, as portadas azuis abertas e os vizinhos chineses descarregando o camião branco com letras vermelhas, que eu não sabia o que significavam e pensei em copiar e perguntar depois, mas não tinha nada em que escrever, nem caneta, nem lápis, só uma afiadeira na carteira, guardava sempre alguma por lá, no bolso pequeno, uma afiadeira e as chaves, a da casa nova e a desta que ainda tinha porta-chaves: um quarto amarelo e uma cama azul, o quarto do Van Gogh que seria um bom nome para o gato preto que tinha uma orelha ratada, comida por um picotado qualquer, mas que acabara por se chamar Fifico porque era o nome que o meu filho gostava, Fifico, e a outra Fofuca, o gato preto, o gato branco, uma família de cinco, nove orelhas normais e uma a meias.

 

A rua caía para a direita, cheia de paralelipípedos desfocando, desfocando, e o centro da imagem escorria pelo ralo grosso da sarjeta oxidada, a mão fria, o calo magoado de segurar o lápis que transcrevia as linhas torcidas do edifício arte nova, subiu mansa até à orelha, furou o cabelo húmido e teso, preso num elástico tão forte que fazia a cabeça doer um pouco, os dedos procuraram a haste e o sangue voltou às pontas cansadas, às unhas moles, às peles rebeldes de manicure, a haste estava ali, hesitante, entre o rosto, o cabelo, a orelha e os dedos empurraram a rua de volta, para fora da sarjeta procurando os postos de luz que em breve se acenderia, ao céu escuro carregado de urgências de chuva e os paralelípipedos ficaram claros, recortados e perfeitos de arestas, e pude voltar a desenhar.

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