“Na maioria das vezes, houve uma erupção de raiva e violência, um furor de despedida, um surto de vandalismo arbitrário — desde as torneiras abertas nas pias e nas banheiras, onde a água transborda, até paredes afunda‐ das a golpes de marreta, ou cobertas com pichações obscenas, ou marcadas por furos de bala, para não falar dos canos de cobre arrancados, dos tapetes com manchas de cloro, dos montes de excremento depositados no chão da sala. “ Sunset Park, Paul Auster.

O telefone tocava. Faltavam trinta minutos e o telefone tocava, ela sabia o que isso queria dizer. Vinham a caminho. A casa continuava igual. A que mudara fora ela. Tinha que sair e entregar as chaves, assinar um papel qualquer. Ninguém entraria para ver como estava a casa. Não agora.

Escovou os dentes, três para a direita, três para a esquerda, de dentro para fora, língua. Penteou o cabelo três para trás, três para o lado direito, três para o lado esquerdo. Sacudiu a cabeça três vezes para os cabelos caírem no lugar certo. Os olhos inchados. Hoje não passaria rímel. O fecho da velha mochila estava gasto, subiu-o com cuidado, desceu-o rápido e guardou os dois vestidos, e a escova de dentes dele. Imaginou-se a contratar um delinquente e o nariz do seu cão: Parta-lhe as pernas. Algo assim. Com que lhe pagaria? Guardou os anéis, os brincos, a pulseira. O telefone tocava ainda, o gato miava. Fechou-o na gaiola. Desceu com a mochila. O olho de peixe da porta mostrava que havia luz do outro lado, luz fria. Tinha que sair e esquecer. Mas olhou, olhou para trás, não olhamos todos?, aquelas escadas, uma atrás da outra, como uma grande cascada. Pousou gato e mochila e subiu de novo. Passou o rímel, um dois três, um dois três. Girou a torneira da água quente, girou a da água fria que guinchou enferrujada, levantou o manípulo da banheira, abriu a torneirinha da retrete. Na casa de banho dos convidados fez o mesmo, mas no duche, ali não tinham instalado banheira. Desceu. Empurrou a torneira do lava louças com o cotovelo, na casa de banho social rodou a torneira da água quente, e a da água fria. Cheirou o sabonetinho: alfazema. Guardou-o no bolso do casaco. As sandálias estavam ao lado da porta. O olho de peixe e a sua luz fria. Desceu à garagem, calçou as galochas e abriu a água da casa das máquinas. As galochas faziam ruído na carpete, um arranhar de unhas na pele seca. Pegou no gato com a mão esquerda, a mochila com a direita, saiu com as chaves na boca. Não tinha mais nada a dizer.

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