Mesmo por cima da minha cabeça há madeira, mas no centro da sala o tecto é feito de vidro. Um vidro embaciado, não de condensação mas de tempo, esse embaciar leitoso que alguns chamam pó. O pó no entanto não tem essa claridade, é escuro, prateado quando o sol o invade, ou negro quando temos menos luz por perto. No meio do vidro pequenas raspas de alumínio fazem um desenho, uma espécie de quadrados e rectângulos alternados que fazem lembrar as palavras escritas à máquina.

Cada tanto passa um avião.

Então o tecto recebe uma sombra, um gesto de encharpe trazida para os ombros, e teimosa, cai de novo.

Ninguém levanta o olhar. Os olhos nos livros, nos jornais, nos computadores, ou na janela que do meu lado direito mostra uma relva selvagem, verde e amarela, cheia daqueles florzinhas que quando somos crianças arrancamos ao chão para sugar a seiva amarga.

Ultimamente tenho tido vontade se morder essas flores, sentir esse fresco que magoa os maxilares e os faz encolherem-se de azedo. Mas não sou imune à toxoplasmose, e isso agora, é mais importante.

Na parede para a qual todos estamos dispostos a olhar há uma tapete. De Arraiolos talvez. Homens que são músicos, um frade em destaque e e quatro na sua retaguarda. Um homem folheia um livro enorme, que colocado à direita não parece ser tão importante como o frade.

Três homens mostram folhas escritas e um deles foi arrancando as folhas como num caminho, as folhas estão no chão e ele está de joelhos, apoia outro enorme livro sobre a sua coxa e esse, eu acho, tem algo de verdadeiro a dizer.

O que ele tem a dizer é uma leitura. Algo ele viu no livro e quer contar ao homem em destaque, apesar de que pela sua cor, azul tão claro, só para quem muito olha sobressai. O homem talvez seja um rei, um presidente, faz um gesto com a mão. Não quer saber de nada. Fala agora. Outro agora. Sim. Não.

O vento sopra devagar pelos cantos inferiores do tapete, e ondula as folhas que estão no chão. Elas encaracolam-se como as verdades por revelar. O homem que tem o joelho em esforço sente um formigueiro nas pernas, e pensa que a sua mãe lhe diz que quando isso acontece, deve comer bananas. Baixa os olhos para as verdades que se fecham, o chão geométrico, os pé dos outros homens que mostram as outras folhas.

Pensa qual será a maior mentira do mundo.

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