Rosarinho no parque

Sobe as escadas do escorrega, não, pára, balança, avança de novo, o joelho no ar, a fralda cheia, muda de ideia, olha o chão, olha o pé, olha o pé, olha o chão, desce, desce?, tá descendo, desce agora, toca o pé no chão e corre, corre pelo meio do parquinho, avança, para onde avança?, o baloiço tá livre, corta o parquinho, vai em linha reta para o baloiço, o baloiço ainda em movimento, cuidado, cuidado, tem um menino grande, no outro baloiço, anda rápido, voa, tá voando e ela corre, e agora a mãe é que corre, cruza o parque, finta o menino da bicicleta, a mãe grita, a mãe do outro menino grande, que empurra o baloiço que voa, grita, é o pé, os pés do menino, em direção à cara, e a mãe agarra o bibe, pelo colarinho, fecha a mão no colarinho, vem bibe, vem camisola, vem cabelo, caiem no chão, tão no chão, pés passam rente, passam rente mas não bate. Não bateu na cara! As mães tão rindo agora, Graças a Deus elas dizem, tão dizendo uma para outra, foi por pouco, foi por pouco.

“Na maioria das vezes, houve uma erupção de raiva e violência, um furor de despedida, um surto de vandalismo arbitrário — desde as torneiras abertas nas pias e nas banheiras, onde a água transborda, até paredes afunda‐ das a golpes de marreta, ou cobertas com pichações obscenas, ou marcadas por furos de bala, para não falar dos canos de cobre arrancados, dos tapetes com manchas de cloro, dos montes de excremento depositados no chão da sala. “ Sunset Park, Paul Auster.

O telefone tocava. Faltavam trinta minutos e o telefone tocava, ela sabia o que isso queria dizer. Vinham a caminho. A casa continuava igual. A que mudara fora ela. Tinha que sair e entregar as chaves, assinar um papel qualquer. Ninguém entraria para ver como estava a casa. Não agora.

Escovou os dentes, três para a direita, três para a esquerda, de dentro para fora, língua. Penteou o cabelo três para trás, três para o lado direito, três para o lado esquerdo. Sacudiu a cabeça três vezes para os cabelos caírem no lugar certo. Os olhos inchados. Hoje não passaria rímel. O fecho da velha mochila estava gasto, subiu-o com cuidado, desceu-o rápido e guardou os dois vestidos, e a escova de dentes dele. Imaginou-se a contratar um delinquente e o nariz do seu cão: Parta-lhe as pernas. Algo assim. Com que lhe pagaria? Guardou os anéis, os brincos, a pulseira. O telefone tocava ainda, o gato miava. Fechou-o na gaiola. Desceu com a mochila. O olho de peixe da porta mostrava que havia luz do outro lado, luz fria. Tinha que sair e esquecer. Mas olhou, olhou para trás, não olhamos todos?, aquelas escadas, uma atrás da outra, como uma grande cascada. Pousou gato e mochila e subiu de novo. Passou o rímel, um dois três, um dois três. Girou a torneira da água quente, girou a da água fria que guinchou enferrujada, levantou o manípulo da banheira, abriu a torneirinha da retrete. Na casa de banho dos convidados fez o mesmo, mas no duche, ali não tinham instalado banheira. Desceu. Empurrou a torneira do lava louças com o cotovelo, na casa de banho social rodou a torneira da água quente, e a da água fria. Cheirou o sabonetinho: alfazema. Guardou-o no bolso do casaco. As sandálias estavam ao lado da porta. O olho de peixe e a sua luz fria. Desceu à garagem, calçou as galochas e abriu a água da casa das máquinas. As galochas faziam ruído na carpete, um arranhar de unhas na pele seca. Pegou no gato com a mão esquerda, a mochila com a direita, saiu com as chaves na boca. Não tinha mais nada a dizer.

se um viajante…

“— Não é isso. Espero que meus leitores leiam em meus livros algo que eu não sabia, mas só posso esperar isso daqueles que esperam ler algo que eles não sabiam. “

é isso…

acabou o porra

, o caramba, o pô, pôxa, carambelis, caraças, caracinhas, cumcatano, porra, bolas, pppppppfffpppp….

o Joca diz:

Pombas!

É isso, direi:

Pombas!

e esse será um momento Adília,

POMBAS, esse será um momento Adília.

amêndoa

O sal. Pouco. Torrado apenas, o caju, o amendoim. Torrada apenas, a amêndoa, a avelã. Comprei à pazada, ao peso. Rebolaram amenos para dentro do saco castanho. Em casa mudei-os, todos para o frasco, um tubo cinzento baço, comprando a 13 euros, 3 iam para a unicef. Na ponta uma espécie de taça-tampa. Servi.

Amendoacajuavelaamendoim,amendoimavelacajuamendoa.

Uma amêndoa viva.

As asas largas, riscos em madeira, as antenas quietas, saltou sobre a avelã descascada, queria subir a taça.

Uma amêndoa viva.

Gregor? – eu perguntei

E a amêndoa nada, a subir a subir a subir.

Gregor?- perguntei de novo.

E nada.

Não seria.

Esmaguei a amêndoa à contraluz, entre a porcelana e o cartão. Quase sangue sobre o sal.

Traça.

Não comi mais.

enigma- desabafos

Numa análise, tropeçamos sempre com o que não sabemos, não podemos saber, não há ninguém que saiba.

Não é preciso que seja uma análise, da psicanálise, basta que seja um debruçar-nos sobre um texto, uma obra, um poema.

Como escritor, como escritora, seria perfeito conseguir fazer isso de propósito, colocar o outro, o pequeno outro, qualquer um, no lugar desse confronto.

Querido Lacan, és o melhor escritor do mundo.

Raios partam.

ao fundo, à esqueda

É logo ali, depois do cemitério. Desces, sabes, depois do cemitério, há uma que sobe, uma que vai em frente, uma que desce. Tu desces, desces, desces de novo, ja vais a tempo de subir. Depois sobes, sobes, sobes. Quando ficares com falta de ar e sem passeio, atravessa a rua, estás quase lá.

A porta está aberta, e por isso podes entrar e descer, descer, descer, descer, descer e é depois à esquerda mas isso vês logo, porque não há mais para onde ir.

A sala cheia.

Um homem já fala, fala, fala. A mulher a teu lado comenta tudo o que o homem diz.

o homem não é Deus, mas estamos aqui para o ouvir. ele sabe. fala, fala, fala.

E a mulher ao teu lado comenta. concorda com o corpo todo, e sacode-se como um pavão com frio. tosse sem pôr a mão na boca.

odeias pessoas, no fundo, odeias.

Cale-se senhora, e tape a boca quando tosse.

mas desceste tanto tanto tanto tanto tanto, que ficas calado, e o homem fala, fala, fala, fala, e esqueces a mulher que tosse e que conta em gritos sussurrados que vai para o alasca,

quero lá saber.

e depois o homem diz que leu, num sítio cujo nome não sabes escrever, que um anjo forjado a fogo, dura o tempo de uma canção. e isso é bonito. porque há tanta gente que nunca fez mais que cantar uma canção. e gente que nunca nem cantou uma canção, e afinal quanto dura uma canção, e quanto duramos sem que ninguém nos oiça, ninguém nos leia, ninguém nos pense, e depois lembras-te que agora somos todos, o tempo de uma canção e que talvez cantemos para senhoras reformadas, que comentam tudo e tossem sem pôr a mão na boca, e ainda assim, ainda assim, aqui, depois de descer, descer, descer, descer…

e o homem continua a falar, a falar, a falar, e a senhora a tossir, a tossir…

E e A

O E e o A estão transparentes.

o A teve cócegas na barriga, desmontou-se como um bolo desses que se chamavam pirâmide e tinham uma cereja no topo, uma franja de chantilly e eu nunca podia comer porque eram feitos com restos de outros bolos e deus nos livre da salmonela.

o E parece o senhor Doc, do regressar ao futuro. Ou uma sapatilha com rodas. Ou o sinal torto de um trovão. Esfarelou-se em movimento. o E.

o A. esfarelou-se quieto.

o E e o A estão transparentes.

os números, esses danados, estão como novos.

Um Site da Web WordPress.com.

EM CIMA ↑