quem falta?

À entrada já se vê a janela, e da janela a entrada. A metade é elétrica e as caudas de plantas. Triangulares arestas aqui e ali. Na altura da minha cabeça uma faixa de frutas: laranja, uva, pêra. Magra, a faixa é animada e dá frescura. Espátulas e facas pendem da parede e uma rã vermelha, de fazer chá, salta desta estante para aquela. Tem caixa de batata e banana, planta de alecrim. Uma de verdade e outra plastificada. Nunca falta detergente para nada e cheira a lavanda e líchias. É branca e azul. A bancada de pedra escura, tem brilhantes que saltitam vibrantes na bayette de cif mil superfícies.

Pêssego

Na ponta do pêssego uma mancha.

A pele rugosa, como fato de treino, pele de pêssego diziamos. Mas não sei se é o nome oficial.

O pêssego arrepanha-me. Os pelos. Pêlos, diziamos antes, quando esses fatos de treino estavam na moda. Reebok. O adidas. Agora é tudo nike e algodão. Não me arrepanha os pêlos. Talvez a sensação, esse eriçar, venha do acento.

Pêssego!

Pêssego.

Escreve-se assim?

Três também leva, e não arrepanha.

Depois só unhas em quadros de giz. E a farinha seca, muito seca.

Mas enfim, uma mancha. Seria uma mosquita? Um mosquito? Uma formiga?

Dizem que aqui viveu um embaixador, ou um consul, cônsul, com acento, e que na mala trouxe as formigas. Todos temos, aqui no prédio, magras, castanhas, não gostam de açúcar. Vivem em caixas de papel, não havendo caixas, basta sacos de papel, mas grossos, nada desses fininhos reciclados onde se guarda a fruta. Fazem o ninho.

Há venenos, pegam na bolinha do veneno, levam para o ninho e acabou-se a vida de cartolina. Dá-me pena. Dizimar.

Talvez me tenha habituado, a esta companhia silenciosa, ordenada e previsível. Sensatas não fazem ninho nos livros, nos cadernos. Há respeito.

Talvez quando as veja pense nesse embaixador, nesse cônsul, e esse exotismo me dê pele de pêssego.

Ou então é so preguiça.

Prêguiça.

i slapped 10, 000 dollars to kill time.

No facebook da Inês tinha uma tabela. Números e letras e datas. Quando juntas números, letras e datas, misturas os elementos sempre no mesmo sentido. O do relógio ou o inverso. Escolhe. O que encontras é a aparência de uma verdade antiga.

Um “hieroglyph”.

No caso, porque estava em inglês.

Quando as depuras, numa paneira, o que encontras é uma criança de cinco anos.

Se os grumos surgem e bates com a um, dois, três, o que tens é uma ciência.

Sendo que no caso, eu sou meio impaciente, e comi a receita crua, o que tenho é a frase:

Não aconteceu mas podia ter acontecido.

Eu podia ter slappeado 10, 000 dollars to matar time.

O lápis estava afiado, o desenho era da historia da carochinha. A carochinha, como era mesmo? Sopa. Não, feijoada. Um rato, uma moeda. Afiou o lápis de novo.

calor

Ficou no escuro. O escuro por dentro era rugoso, o avesso de qualquer coisa. Orgânico. Tinha esse cheiro que bicho tem e que bebe os perfumes em volta mas aparece sempre, resistindo, insistindo em ser bicho.

Ficou no escuro e cada tanto roçava algo, algo rijo, amarelado, mas isso ela não via. Eram bolinhas, variadas, rijas, saltitando no fundo, raspando-a. Quando fazia frio o corpo dela enrijecia. No calor dilatava. O escuro ficava mais escuro ou menos escuro, mas as pedras sempre lá.

Eram pedras?

Havia movimento, e quando havia movimento havia também peso, e vozes. A luz variava mais e o cheiro a bicho era quase imperceptível. Mas depois parava tudo e não havia mais ninguém pesando sobre ela, ela não desaparecia no meio de coisas brancas e lisas, dentro de arames que eram sacudidos antes de tudo parar.

Às vezes tiravam-na para fora, e ela deslizava nas coisas brancas. Era bom. Era o que tinha de ser.

O destino tem qualquer coisa de tranquilizante, ainda que isso a esgotasse, ainda que a aproximasse do fim.

Servia para alguma coisa.

Queria acabar assim, gasta.

Um dia fez calor, as pedras,

eram pedras?,

raspavam-lhe os desenhos. Fez mais calor. O corpo dilatava e fervia. O sangue queria escapar, encontrar as coisas brancas e deslizar, escorrer.

Não havia para onde.

Escorreu até a ponta, estrangulada entre si e uma tampa intransigente.

Segurou o que pode.

Não iria para fora, não se misturaria com aquele avesso de cheiro a bicho. Ficou ali feita nódoa negra, entre a ponta e a tampa.

Cheia de si.

Rosarinho no parque

Sobe as escadas do escorrega, não, pára, balança, avança de novo, o joelho no ar, a fralda cheia, muda de ideia, olha o chão, olha o pé, olha o pé, olha o chão, desce, desce?, tá descendo, desce agora, toca o pé no chão e corre, corre pelo meio do parquinho, avança, para onde avança?, o baloiço tá livre, corta o parquinho, vai em linha reta para o baloiço, o baloiço ainda em movimento, cuidado, cuidado, tem um menino grande, no outro baloiço, anda rápido, voa, tá voando e ela corre, e agora a mãe é que corre, cruza o parque, finta o menino da bicicleta, a mãe grita, a mãe do outro menino grande, que empurra o baloiço que voa, grita, é o pé, os pés do menino, em direção à cara, e a mãe agarra o bibe, pelo colarinho, fecha a mão no colarinho, vem bibe, vem camisola, vem cabelo, caiem no chão, tão no chão, pés passam rente, passam rente mas não bate. Não bateu na cara! As mães tão rindo agora, Graças a Deus elas dizem, tão dizendo uma para outra, foi por pouco, foi por pouco.

se um viajante…

“— Não é isso. Espero que meus leitores leiam em meus livros algo que eu não sabia, mas só posso esperar isso daqueles que esperam ler algo que eles não sabiam. “

é isso…

acabou o porra

, o caramba, o pô, pôxa, carambelis, caraças, caracinhas, cumcatano, porra, bolas, pppppppfffpppp….

o Joca diz:

Pombas!

É isso, direi:

Pombas!

e esse será um momento Adília,

POMBAS, esse será um momento Adília.

Um Site da Web WordPress.com.

EM CIMA ↑