O lápis estava afiado, o desenho era da historia da carochinha. A carochinha, como era mesmo? Sopa. Não, feijoada. Um rato, uma moeda. Afiou o lápis de novo.

calor

Ficou no escuro. O escuro por dentro era rugoso, o avesso de qualquer coisa. Orgânico. Tinha esse cheiro que bicho tem e que bebe os perfumes em volta mas aparece sempre, resistindo, insistindo em ser bicho.

Ficou no escuro e cada tanto roçava algo, algo rijo, amarelado, mas isso ela não via. Eram bolinhas, variadas, rijas, saltitando no fundo, raspando-a. Quando fazia frio o corpo dela enrijecia. No calor dilatava. O escuro ficava mais escuro ou menos escuro, mas as pedras sempre lá.

Eram pedras?

Havia movimento, e quando havia movimento havia também peso, e vozes. A luz variava mais e o cheiro a bicho era quase imperceptível. Mas depois parava tudo e não havia mais ninguém pesando sobre ela, ela não desaparecia no meio de coisas brancas e lisas, dentro de arames que eram sacudidos antes de tudo parar.

Às vezes tiravam-na para fora, e ela deslizava nas coisas brancas. Era bom. Era o que tinha de ser.

O destino tem qualquer coisa de tranquilizante, ainda que isso a esgotasse, ainda que a aproximasse do fim.

Servia para alguma coisa.

Queria acabar assim, gasta.

Um dia fez calor, as pedras,

eram pedras?,

raspavam-lhe os desenhos. Fez mais calor. O corpo dilatava e fervia. O sangue queria escapar, encontrar as coisas brancas e deslizar, escorrer.

Não havia para onde.

Escorreu até a ponta, estrangulada entre si e uma tampa intransigente.

Segurou o que pode.

Não iria para fora, não se misturaria com aquele avesso de cheiro a bicho. Ficou ali feita nódoa negra, entre a ponta e a tampa.

Cheia de si.

Rosarinho no parque

Sobe as escadas do escorrega, não, pára, balança, avança de novo, o joelho no ar, a fralda cheia, muda de ideia, olha o chão, olha o pé, olha o pé, olha o chão, desce, desce?, tá descendo, desce agora, toca o pé no chão e corre, corre pelo meio do parquinho, avança, para onde avança?, o baloiço tá livre, corta o parquinho, vai em linha reta para o baloiço, o baloiço ainda em movimento, cuidado, cuidado, tem um menino grande, no outro baloiço, anda rápido, voa, tá voando e ela corre, e agora a mãe é que corre, cruza o parque, finta o menino da bicicleta, a mãe grita, a mãe do outro menino grande, que empurra o baloiço que voa, grita, é o pé, os pés do menino, em direção à cara, e a mãe agarra o bibe, pelo colarinho, fecha a mão no colarinho, vem bibe, vem camisola, vem cabelo, caiem no chão, tão no chão, pés passam rente, passam rente mas não bate. Não bateu na cara! As mães tão rindo agora, Graças a Deus elas dizem, tão dizendo uma para outra, foi por pouco, foi por pouco.

se um viajante…

“— Não é isso. Espero que meus leitores leiam em meus livros algo que eu não sabia, mas só posso esperar isso daqueles que esperam ler algo que eles não sabiam. “

é isso…

acabou o porra

, o caramba, o pô, pôxa, carambelis, caraças, caracinhas, cumcatano, porra, bolas, pppppppfffpppp….

o Joca diz:

Pombas!

É isso, direi:

Pombas!

e esse será um momento Adília,

POMBAS, esse será um momento Adília.

amêndoa

O sal. Pouco. Torrado apenas, o caju, o amendoim. Torrada apenas, a amêndoa, a avelã. Comprei à pazada, ao peso. Rebolaram amenos para dentro do saco castanho. Em casa mudei-os, todos para o frasco, um tubo cinzento baço, comprando a 13 euros, 3 iam para a unicef. Na ponta uma espécie de taça-tampa. Servi.

Amendoacajuavelaamendoim,amendoimavelacajuamendoa.

Uma amêndoa viva.

As asas largas, riscos em madeira, as antenas quietas, saltou sobre a avelã descascada, queria subir a taça.

Uma amêndoa viva.

Gregor? – eu perguntei

E a amêndoa nada, a subir a subir a subir.

Gregor?- perguntei de novo.

E nada.

Não seria.

Esmaguei a amêndoa à contraluz, entre a porcelana e o cartão. Quase sangue sobre o sal.

Traça.

Não comi mais.

enigma- desabafos

Numa análise, tropeçamos sempre com o que não sabemos, não podemos saber, não há ninguém que saiba.

Não é preciso que seja uma análise, da psicanálise, basta que seja um debruçar-nos sobre um texto, uma obra, um poema.

Como escritor, como escritora, seria perfeito conseguir fazer isso de propósito, colocar o outro, o pequeno outro, qualquer um, no lugar desse confronto.

Querido Lacan, és o melhor escritor do mundo.

Raios partam.

ao fundo, à esqueda

É logo ali, depois do cemitério. Desces, sabes, depois do cemitério, há uma que sobe, uma que vai em frente, uma que desce. Tu desces, desces, desces de novo, ja vais a tempo de subir. Depois sobes, sobes, sobes. Quando ficares com falta de ar e sem passeio, atravessa a rua, estás quase lá.

A porta está aberta, e por isso podes entrar e descer, descer, descer, descer, descer e é depois à esquerda mas isso vês logo, porque não há mais para onde ir.

A sala cheia.

Um homem já fala, fala, fala. A mulher a teu lado comenta tudo o que o homem diz.

o homem não é Deus, mas estamos aqui para o ouvir. ele sabe. fala, fala, fala.

E a mulher ao teu lado comenta. concorda com o corpo todo, e sacode-se como um pavão com frio. tosse sem pôr a mão na boca.

odeias pessoas, no fundo, odeias.

Cale-se senhora, e tape a boca quando tosse.

mas desceste tanto tanto tanto tanto tanto, que ficas calado, e o homem fala, fala, fala, fala, e esqueces a mulher que tosse e que conta em gritos sussurrados que vai para o alasca,

quero lá saber.

e depois o homem diz que leu, num sítio cujo nome não sabes escrever, que um anjo forjado a fogo, dura o tempo de uma canção. e isso é bonito. porque há tanta gente que nunca fez mais que cantar uma canção. e gente que nunca nem cantou uma canção, e afinal quanto dura uma canção, e quanto duramos sem que ninguém nos oiça, ninguém nos leia, ninguém nos pense, e depois lembras-te que agora somos todos, o tempo de uma canção e que talvez cantemos para senhoras reformadas, que comentam tudo e tossem sem pôr a mão na boca, e ainda assim, ainda assim, aqui, depois de descer, descer, descer, descer…

e o homem continua a falar, a falar, a falar, e a senhora a tossir, a tossir…

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