ao fundo, à esqueda

É logo ali, depois do cemitério. Desces, sabes, depois do cemitério, há uma que sobe, uma que vai em frente, uma que desce. Tu desces, desces, desces de novo, ja vais a tempo de subir. Depois sobes, sobes, sobes. Quando ficares com falta de ar e sem passeio, atravessa a rua, estás quase lá.

A porta está aberta, e por isso podes entrar e descer, descer, descer, descer, descer e é depois à esquerda mas isso vês logo, porque não há mais para onde ir.

A sala cheia.

Um homem já fala, fala, fala. A mulher a teu lado comenta tudo o que o homem diz.

o homem não é Deus, mas estamos aqui para o ouvir. ele sabe. fala, fala, fala.

E a mulher ao teu lado comenta. concorda com o corpo todo, e sacode-se como um pavão com frio. tosse sem pôr a mão na boca.

odeias pessoas, no fundo, odeias.

Cale-se senhora, e tape a boca quando tosse.

mas desceste tanto tanto tanto tanto tanto, que ficas calado, e o homem fala, fala, fala, fala, e esqueces a mulher que tosse e que conta em gritos sussurrados que vai para o alasca,

quero lá saber.

e depois o homem diz que leu, num sítio cujo nome não sabes escrever, que um anjo forjado a fogo, dura o tempo de uma canção. e isso é bonito. porque há tanta gente que nunca fez mais que cantar uma canção. e gente que nunca nem cantou uma canção, e afinal quanto dura uma canção, e quanto duramos sem que ninguém nos oiça, ninguém nos leia, ninguém nos pense, e depois lembras-te que agora somos todos, o tempo de uma canção e que talvez cantemos para senhoras reformadas, que comentam tudo e tossem sem pôr a mão na boca, e ainda assim, ainda assim, aqui, depois de descer, descer, descer, descer…

e o homem continua a falar, a falar, a falar, e a senhora a tossir, a tossir…

E e A

O E e o A estão transparentes.

o A teve cócegas na barriga, desmontou-se como um bolo desses que se chamavam pirâmide e tinham uma cereja no topo, uma franja de chantilly e eu nunca podia comer porque eram feitos com restos de outros bolos e deus nos livre da salmonela.

o E parece o senhor Doc, do regressar ao futuro. Ou uma sapatilha com rodas. Ou o sinal torto de um trovão. Esfarelou-se em movimento. o E.

o A. esfarelou-se quieto.

o E e o A estão transparentes.

os números, esses danados, estão como novos.

Dos livros deste ano


mês livro e autor
1/1/18 O tumulto das ondas- Mishima
1/1/18 Canções mexicanas- Gonçalo M. Tavares
lindo 1/1/18 A primeira pessoa- Ali Smith 
1/1/18 Homens imprudentemente poéticos- Walter Hugo Mãe
1/2/18 Amor e outras histórias- André Santanna
Maravilhoso 1/2/18 Autobiografia do vermelho- Anne Carson excelente
Perfeito 2/1/18 Um cavalo entra num bar- David Grossman
1/2/18 Distancia de resgate- Samanta Schwebelin
1/2/18 Confissões de um assassino- Joseph Roth
1/2/18 La nostalgia feliz- Amelie Nothomb
Clube de leitores Gonçalo 1/2/18 O mandarim- Eça de Queiroz
1/2/18 Requiem- Antonio Tabucchi
1/3/18 Mrs Dalloway- Virginia Woolf (2x)
mt bom! 3/1/18 O primeiro homem mau- Miranda July
1/3/18 Aldeia Nova- Manuel da Fonseca
1/3/18 O fogo e as cinzas- Manuel da Fonseca
1/3/18 O sonho dos heróis- Bioy Casares
1/4/18 Miniaturas- Andrea del Fuego
1/4/18 O pendura- Jules Renard
1/4/18 Um acontecimento na ponte de Owl Creek- Ambrose Pierce
clube leitura Gonçalo 1/4/18 Manifestos- Almada Negreiros
1/4/18 Flush- Virginia Woolf
1/4/18 O primeiro amor- Ali Smith
1/5/18 Diário sentimental do adultério- Filipa Melo
1/5/18 Diário da queda- Michel Laub
clube Gonçalo 1/5/18 Loucura- Mário de Sá-Carneiro
1/5/18 Na memória dos rouxinóis- Filipa Martins
1/5/18 A festa da insignificância- Milan Kundera
1/5/18 Pureza- Jonathan Franzen
1/5/18 O pequeno abismo- Raymond Chandler
Escrevedeira- entrevista 1/5/18 Opisanie Swiata- Verónica Stigger
clube Gonçalo 1/6/18 Coração, cabeça e estômago- Camilo Castelo Branco
1/6/18 Vento sul- Vilma Areas
Lindo, lindo 1/7/18 Animais domésticos- Luana Schnaiderman
1/7/18 O homem comum- Philip Roth
1/7/18 Eles não moram mais aqui- Ronaldo Cagiano
beleza pura 1/7/18 Bruno Schulz conduz um cavalo- Leda Cartum
1/7/18 O coro dos defuntos- António Tavares
1/7/18 O luto de Elias Grou- João Tordo
mt bom 1/9/18 Um bailarino na batalha- Hélia Correia 
clássico 1/9/18 O primo Basílio- Eça de Queiroz 
Lindo lindo 1/9/18 Sonhos de Einstein- Alan Lightman
1/9/18 O Delfim- José Cardoso Pires
1/10/18 O caso Sparsholt- Alan Hollinghurst (não terminei)
Fora do comum 1/10/18 O mestre-Ana Hatherley 
entrevista escrevedeira-mt bom 1/11/18 Antonio- Beatriz Bracher
1/11/18 O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo- Germano de Almeida
clube Gonçalo 1/11/18 Poesia- Sophia de Mello Breyner Andersen
perfeito 1/11/18 O rei faz vénia e mata- Herta Müller  excelente
1/11/18 Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha- Liudmila Petruchévskaia
o livro perfeito…maravilhoso 1/12/18 O amor dos homens avulsos- Victor Heringer- MARAVILHOSO
12/1/18 O falecido Mattia Pascal- Luigi Pirandello
12/1/18 A vegetariana- Han Kang






Queridos que sempre pedem recomendações, não deixem de ler :

Um cavalo entra num bar- Grossman

O amor dos homens avulsos- Heringer

Autobiografia do vermelho- Carson

O rei faz vénia e mata- Müller

Os sonhos de Einstein- Lightman

Os animais domésticos- Chnaiderman

Se em 2019 lerem estes 6 livros, já será um ano diferente!

araújo

O senhor Araújo. De seu uma pasta, um fato, uma lata de grão.

Uma filha, que escrevera na secretária, que era de madeira e não uma pessoa. A pessoa que era mãe da filha, vestia saias verdes.

Ele era, obviamente do sporting.

O amor ao clube, dava-lhe pele de galinha, e outras mudanças no corpo.

Depois fez-se velho, deu-se conta, deu, mas muito de vez em quando. 

Tinha um sobrinho, ajudou o sobrinho, mas nunca se decidiu a gostar dele. Não soube se o sobrinho o apreciava ou não. Não soube se era apreciável. Era leal, apesar de nunca ter percebido que quando fez a filha, violou a mulher de saia verde.

Ela final até gostava dele. Ainda assim, aquilo tinha sido uma violação.

Araújo era do sporting, mas as suas escovas de dentes, nenhuma era verde. E tinha muitas. Para os dentes, para a língua. Para o pequeno almoço, para o almoço, para o jantar.

Deixa-nos a pensar o que é a vida e se temos uma boa higiene oral.

 

Reflexões sobre o Testamento do Sr. Napumoceno de Araújo, de Germano de Almeida.

estetoscópio

O quarto é branco. Bem branco. Armários, janelas, paredes. Por isso a cama é tão escura, de uma madeira grossa, oriental, colada com força por algum alemão que come muita proteína. Sim quase ao contrário do que costuma ser. A mesa de noite é de madeira também, outra madeira, adocicada e com nome de fruto. Para ler, um candeeiro com cara de estetoscópio. A luz cai na página e cega um pouco, ela as vezes acha que são as palavras. 

É difícil saber ao certo, sobre as palavras apareceram umas asas, de mosca. Pequenina e rápida, dessas de casa de banho, ela pensou. A mosquita, dessas de casa de banho, no quarto voando perto da luz. Vai-se queimar, talvez. Pousou na sombra enquanto ela lia. Voltou para a lâmpada quente quando as palavras sossegaram. Inquietou-se. Fugia à metáfora, a mosquita, e ela dormiu inquieta.

digressões

Os dois gatos, um branco e outro preto, estendidos ao sol, as portadas azuis abertas e os vizinhos chineses descarregando o camião branco com letras vermelhas, que eu não sabia o que significavam e pensei em copiar e perguntar depois, mas não tinha nada em que escrever, nem caneta, nem lápis, só uma afiadeira na carteira, guardava sempre alguma por lá, no bolso pequeno, uma afiadeira e as chaves, a da casa nova e a desta que ainda tinha porta-chaves: um quarto amarelo e uma cama azul, o quarto do Van Gogh que seria um bom nome para o gato preto que tinha uma orelha ratada, comida por um picotado qualquer, mas que acabara por se chamar Fifico porque era o nome que o meu filho gostava, Fifico, e a outra Fofuca, o gato preto, o gato branco, uma família de cinco, nove orelhas normais e uma a meias.

 

A rua caía para a direita, cheia de paralelipípedos desfocando, desfocando, e o centro da imagem escorria pelo ralo grosso da sarjeta oxidada, a mão fria, o calo magoado de segurar o lápis que transcrevia as linhas torcidas do edifício arte nova, subiu mansa até à orelha, furou o cabelo húmido e teso, preso num elástico tão forte que fazia a cabeça doer um pouco, os dedos procuraram a haste e o sangue voltou às pontas cansadas, às unhas moles, às peles rebeldes de manicure, a haste estava ali, hesitante, entre o rosto, o cabelo, a orelha e os dedos empurraram a rua de volta, para fora da sarjeta procurando os postos de luz que em breve se acenderia, ao céu escuro carregado de urgências de chuva e os paralelípipedos ficaram claros, recortados e perfeitos de arestas, e pude voltar a desenhar.

Bestiário express

O cão a barata a angústia,

mordiam a mosca, a borboleta, o caracol.

No fundo da lagoa três peixes falavam sobre o absurdo,

o lodo mais puro sabe a sal.

O rato, a cobra, a traça

rezavam canções de encantar:

a asa, a casa, e o terminar.

A um canto ela cerzia duas meias sobre o alguidar.

meias

Não me levantei descalça.  Tinha as meias. As noites de lençol e meia. Enquanto eu dormia, sem frio, sem calor, ardia a minha esperança nas borboletas brancas.

Obedeço só a crendices com poesia: borboletas brancas pairando à minha volta? Sorte, boa notícia. Gato preto caminhando na esquina? Se formos para o mesmo lado é boa sorte!

Dentes de leão raros, um por relva? Desejos por concretizar.

Pode ser, pode ser sim, que algumas dessas crendices as tenha inventado eu. Pela poesia. Não, pela beleza. Ou pela ternura, a mesma que um bom par de meias dá a um pé de fim de verão.

Não me levantei descalça. Tinha as meias. A segunda volta. Os memes, os photoshops, os gritos, os hashitaguis, as rezas, as esperanças.

Há-de-dar-sim.

Para continuar vivendo.

Há-de-dar-sim para acreditar um pouco numa outra crendice minha.

Inventei eu também. Olhe para uma pessoa, qualquer. Cruzou na rua, no metro, viu pela janela. Suponha humanidade. Estabeleça contacto visual e aguarde.

Seria essa a ideia das borboletas?

Rodopie buscando o olhar. Se alguém olhar no seu olho, dentro do cristal húmido, que é o mesmo que estava lá antes, na barriga de sua mãe, crescendo com as unhas, os ossos, o cérebro.

O olho, que já estava lá, na barriga da sua mãe.

O mesmo que alguma mão caridosa puxará para baixo quando chegar o fim de olhar.

A pessoa poderá, ainda assim, defender a tortura, a inferioridade de uns em relação aos outros?

Pode, dirão vocês. Já todos sabemos que pode. Sabemos bem demais.

Enquanto aguarda, vista as meias.

Mesmo que seja início de verão.

Mesmo que esteja num lugar quente.

Pelo sim pelo não vista as meias.

Se puder escreva nelas.

Algo inspirador.

Se o outro olho, fugir do seu olho.

E passar por ali uma borboleta, um dente de leão, um gato preto na esquina caminhando para o mesmo lado…

…Vai olhar o vosso pé.

 

 

 

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