Rosarinho no parque

Sobe as escadas do escorrega, não, pára, balança, avança de novo, o joelho no ar, a fralda cheia, muda de ideia, olha o chão, olha o pé, olha o pé, olha o chão, desce, desce?, tá descendo, desce agora, toca o pé no chão e corre, corre pelo meio do parquinho, avança, para onde avança?, o baloiço tá livre, corta o parquinho, vai em linha reta para o baloiço, o baloiço ainda em movimento, cuidado, cuidado, tem um menino grande, no outro baloiço, anda rápido, voa, tá voando e ela corre, e agora a mãe é que corre, cruza o parque, finta o menino da bicicleta, a mãe grita, a mãe do outro menino grande, que empurra o baloiço que voa, grita, é o pé, os pés do menino, em direção à cara, e a mãe agarra o bibe, pelo colarinho, fecha a mão no colarinho, vem bibe, vem camisola, vem cabelo, caiem no chão, tão no chão, pés passam rente, passam rente mas não bate. Não bateu na cara! As mães tão rindo agora, Graças a Deus elas dizem, tão dizendo uma para outra, foi por pouco, foi por pouco.

se um viajante…

“— Não é isso. Espero que meus leitores leiam em meus livros algo que eu não sabia, mas só posso esperar isso daqueles que esperam ler algo que eles não sabiam. “

é isso…

acabou o porra

, o caramba, o pô, pôxa, carambelis, caraças, caracinhas, cumcatano, porra, bolas, pppppppfffpppp….

o Joca diz:

Pombas!

É isso, direi:

Pombas!

e esse será um momento Adília,

POMBAS, esse será um momento Adília.

amêndoa

O sal. Pouco. Torrado apenas, o caju, o amendoim. Torrada apenas, a amêndoa, a avelã. Comprei à pazada, ao peso. Rebolaram amenos para dentro do saco castanho. Em casa mudei-os, todos para o frasco, um tubo cinzento baço, comprando a 13 euros, 3 iam para a unicef. Na ponta uma espécie de taça-tampa. Servi.

Amendoacajuavelaamendoim,amendoimavelacajuamendoa.

Uma amêndoa viva.

As asas largas, riscos em madeira, as antenas quietas, saltou sobre a avelã descascada, queria subir a taça.

Uma amêndoa viva.

Gregor? – eu perguntei

E a amêndoa nada, a subir a subir a subir.

Gregor?- perguntei de novo.

E nada.

Não seria.

Esmaguei a amêndoa à contraluz, entre a porcelana e o cartão. Quase sangue sobre o sal.

Traça.

Não comi mais.

enigma- desabafos

Numa análise, tropeçamos sempre com o que não sabemos, não podemos saber, não há ninguém que saiba.

Não é preciso que seja uma análise, da psicanálise, basta que seja um debruçar-nos sobre um texto, uma obra, um poema.

Como escritor, como escritora, seria perfeito conseguir fazer isso de propósito, colocar o outro, o pequeno outro, qualquer um, no lugar desse confronto.

Querido Lacan, és o melhor escritor do mundo.

Raios partam.

ao fundo, à esqueda

É logo ali, depois do cemitério. Desces, sabes, depois do cemitério, há uma que sobe, uma que vai em frente, uma que desce. Tu desces, desces, desces de novo, ja vais a tempo de subir. Depois sobes, sobes, sobes. Quando ficares com falta de ar e sem passeio, atravessa a rua, estás quase lá.

A porta está aberta, e por isso podes entrar e descer, descer, descer, descer, descer e é depois à esquerda mas isso vês logo, porque não há mais para onde ir.

A sala cheia.

Um homem já fala, fala, fala. A mulher a teu lado comenta tudo o que o homem diz.

o homem não é Deus, mas estamos aqui para o ouvir. ele sabe. fala, fala, fala.

E a mulher ao teu lado comenta. concorda com o corpo todo, e sacode-se como um pavão com frio. tosse sem pôr a mão na boca.

odeias pessoas, no fundo, odeias.

Cale-se senhora, e tape a boca quando tosse.

mas desceste tanto tanto tanto tanto tanto, que ficas calado, e o homem fala, fala, fala, fala, e esqueces a mulher que tosse e que conta em gritos sussurrados que vai para o alasca,

quero lá saber.

e depois o homem diz que leu, num sítio cujo nome não sabes escrever, que um anjo forjado a fogo, dura o tempo de uma canção. e isso é bonito. porque há tanta gente que nunca fez mais que cantar uma canção. e gente que nunca nem cantou uma canção, e afinal quanto dura uma canção, e quanto duramos sem que ninguém nos oiça, ninguém nos leia, ninguém nos pense, e depois lembras-te que agora somos todos, o tempo de uma canção e que talvez cantemos para senhoras reformadas, que comentam tudo e tossem sem pôr a mão na boca, e ainda assim, ainda assim, aqui, depois de descer, descer, descer, descer…

e o homem continua a falar, a falar, a falar, e a senhora a tossir, a tossir…

E e A

O E e o A estão transparentes.

o A teve cócegas na barriga, desmontou-se como um bolo desses que se chamavam pirâmide e tinham uma cereja no topo, uma franja de chantilly e eu nunca podia comer porque eram feitos com restos de outros bolos e deus nos livre da salmonela.

o E parece o senhor Doc, do regressar ao futuro. Ou uma sapatilha com rodas. Ou o sinal torto de um trovão. Esfarelou-se em movimento. o E.

o A. esfarelou-se quieto.

o E e o A estão transparentes.

os números, esses danados, estão como novos.

Dos livros deste ano


mês livro e autor
1/1/18 O tumulto das ondas- Mishima
1/1/18 Canções mexicanas- Gonçalo M. Tavares
lindo 1/1/18 A primeira pessoa- Ali Smith 
1/1/18 Homens imprudentemente poéticos- Walter Hugo Mãe
1/2/18 Amor e outras histórias- André Santanna
Maravilhoso 1/2/18 Autobiografia do vermelho- Anne Carson excelente
Perfeito 2/1/18 Um cavalo entra num bar- David Grossman
1/2/18 Distancia de resgate- Samanta Schwebelin
1/2/18 Confissões de um assassino- Joseph Roth
1/2/18 La nostalgia feliz- Amelie Nothomb
Clube de leitores Gonçalo 1/2/18 O mandarim- Eça de Queiroz
1/2/18 Requiem- Antonio Tabucchi
1/3/18 Mrs Dalloway- Virginia Woolf (2x)
mt bom! 3/1/18 O primeiro homem mau- Miranda July
1/3/18 Aldeia Nova- Manuel da Fonseca
1/3/18 O fogo e as cinzas- Manuel da Fonseca
1/3/18 O sonho dos heróis- Bioy Casares
1/4/18 Miniaturas- Andrea del Fuego
1/4/18 O pendura- Jules Renard
1/4/18 Um acontecimento na ponte de Owl Creek- Ambrose Pierce
clube leitura Gonçalo 1/4/18 Manifestos- Almada Negreiros
1/4/18 Flush- Virginia Woolf
1/4/18 O primeiro amor- Ali Smith
1/5/18 Diário sentimental do adultério- Filipa Melo
1/5/18 Diário da queda- Michel Laub
clube Gonçalo 1/5/18 Loucura- Mário de Sá-Carneiro
1/5/18 Na memória dos rouxinóis- Filipa Martins
1/5/18 A festa da insignificância- Milan Kundera
1/5/18 Pureza- Jonathan Franzen
1/5/18 O pequeno abismo- Raymond Chandler
Escrevedeira- entrevista 1/5/18 Opisanie Swiata- Verónica Stigger
clube Gonçalo 1/6/18 Coração, cabeça e estômago- Camilo Castelo Branco
1/6/18 Vento sul- Vilma Areas
Lindo, lindo 1/7/18 Animais domésticos- Luana Schnaiderman
1/7/18 O homem comum- Philip Roth
1/7/18 Eles não moram mais aqui- Ronaldo Cagiano
beleza pura 1/7/18 Bruno Schulz conduz um cavalo- Leda Cartum
1/7/18 O coro dos defuntos- António Tavares
1/7/18 O luto de Elias Grou- João Tordo
mt bom 1/9/18 Um bailarino na batalha- Hélia Correia 
clássico 1/9/18 O primo Basílio- Eça de Queiroz 
Lindo lindo 1/9/18 Sonhos de Einstein- Alan Lightman
1/9/18 O Delfim- José Cardoso Pires
1/10/18 O caso Sparsholt- Alan Hollinghurst (não terminei)
Fora do comum 1/10/18 O mestre-Ana Hatherley 
entrevista escrevedeira-mt bom 1/11/18 Antonio- Beatriz Bracher
1/11/18 O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo- Germano de Almeida
clube Gonçalo 1/11/18 Poesia- Sophia de Mello Breyner Andersen
perfeito 1/11/18 O rei faz vénia e mata- Herta Müller  excelente
1/11/18 Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha- Liudmila Petruchévskaia
o livro perfeito…maravilhoso 1/12/18 O amor dos homens avulsos- Victor Heringer- MARAVILHOSO
12/1/18 O falecido Mattia Pascal- Luigi Pirandello
12/1/18 A vegetariana- Han Kang






Queridos que sempre pedem recomendações, não deixem de ler :

Um cavalo entra num bar- Grossman

O amor dos homens avulsos- Heringer

Autobiografia do vermelho- Carson

O rei faz vénia e mata- Müller

Os sonhos de Einstein- Lightman

Os animais domésticos- Chnaiderman

Se em 2019 lerem estes 6 livros, já será um ano diferente!

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